
Uma prática tem se tornado cada vez mais comum nas famílias brasileiras, embora raramente seja discutida com a devida profundidade é o chamado “rodízio de contas”.
Segundo pesquisa do Instituto Locomotiva em parceria com a QuestionPro, 37% dos brasileiros atrasaram pagamentos nos últimos 12 meses para conseguir priorizar despesas consideradas essenciais. Em termos práticos, isso significa escolher quais contas pagar e quais deixar para depois.
Aluguel, condomínio e alimentação assumem o topo da lista. Já despesas como telefone, cartão de crédito e outros compromissos acabam sendo postergadas.
Mais do que um problema financeiro, esse comportamento revela um padrão preocupante de sobrevivência financeira dos brasileiros que passaram a se comportar como “sommelliers” de dívidas.
Quando pagar contas vira um exercício de escolha
Em um ambiente de renda instável e alta informalidade, muitas famílias não enfrentam apenas o desafio de organizar o orçamento. Elas enfrentam a falta de previsibilidade ainda mais num momento em que o endividamento das famílias não para de crescer não somente pela falta de educação financeira mas também pelos imprevistos e pelos juros alto não conseguindo honrar com os compromissos com os credores.
Segundo dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC), o endividamento das famílias brasileiras atingiu um novo patamar histórico, com 80,2% relatando ter algum tipo de dívida em fevereiro de 2026.
Neste cenário o planejamento deixe de ser uma ferramenta racional para a tomada de decisões e passa a ser substituído por escolhas emergenciais.
O dado se agrava quando observamos as classes de menor renda, onde a chamada inadimplência estratégica chega a 48%. Mesmo entre as classes mais altas, 24% relatam o mesmo comportamento.
Isso mostra que o problema não está restrito à renda e sim, está na forma como o dinheiro é gerido diante de incertezas.
O impacto invisível: a saúde mental
Existe um ponto pouco explorado nesse debate que é a forma como lidamos com o dinheiro e como ele impacta diretamente nossa saúde mental.
Estudos sobre longevidade financeira mostram que a ausência de organização e previsibilidade nas finanças aumenta significativamente os níveis de estresse, ansiedade e sensação de perda de controle.
O rodízio de contas não é apenas uma decisão financeira, mas uma reação emocional a um ambiente de pressão constante. Nesse contexto, as escolhas tendem a se deteriorar, levando a decisões cada vez piores e alimentando uma espiral de endividamento difícil de interromper.
Viver escolhendo qual conta pagar primeiro é viver sob tensão constante. Com o tempo, esse cenário cobra um preço alto, não apenas no bolso, mas também na saúde física e emocional.
Na maior parte das vezes, não é falta de responsabilidade e sim de estrutura. Um erro comum é interpretar esse comportamento como desorganização ou falta de disciplina. Na maioria dos casos, não é isso.
A própria pesquisa aponta que o fenômeno está diretamente ligado à renda irregular e à instabilidade do mercado de trabalho. Isto significa que, muitas famílias não deixam de pagar porque querem. Elas deixam de pagar porque precisam priorizar o que é mais urgente.
Mas reconhecer a causa não elimina a necessidade de solução ou de ajuda profissional
O papel do planejamento financeiro nesse cenário
É exatamente nesse tipo de contexto que o planejamento financeiro se torna mais relevante.
Não como uma ferramenta voltada apenas para quem quer investir, mas como um instrumento de proteção e estabilidade.
Organizar a vida financeira significa, antes de tudo, reduzir a necessidade de decisões emergenciais. Para iso há alguns pontos são fundamentais neste processo:
São medidas simples na teoria, mas extremamente poderosas na prática.
Pequenas mudanças que quebram grandes ciclos
O rodízio de contas é um sintoma pois, revela um ciclo financeiro baseado em reação, não em planejamento.
Romper esse ciclo não exige mudanças radicais, mas sim consistência, ou seja, dando sempre um passo de cada vez para a direção certa, ao invés, de sair correndo para o lado errado.
Trocar decisões impulsivas por decisões conscientes auxilia a substituir urgência por previsibilidade.
Ao longo do tempo, esses ajustes reduzem não apenas o impacto no orçamento, mas também o desgaste emocional associado ao dinheiro.
Por fim, a pesquisa do Instituto Locomotiva traz um retrato fiel da realidade brasileira. Famílias que não estão simplesmente gastando mal, mas tentando administrar a escassez da melhor forma possível.
O ponto de atenção é que viver constantemente no limite financeiro não afeta apenas o bolso mas, também a qualidade de vida. E é justamente aqui que entra a importância dos hábitos financeiros.
Organização não elimina dificuldades, mas reduz o peso delas e, em um cenário onde o dinheiro muitas vezes é curto, talvez o maior ganho não esteja em quanto se ganha, mas na forma como se administra.
Porque, no fim das contas, organizar as finanças é também cuidar da própria saúde emocional!

Rogério Nakata é Planejador Financeiro CFP® da Economia Comportamental e palestrante sobre os temas Educação Financeira e Planejamento Financeiro de grandes organizações públicas e privadas
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