
– Em pouco mais de cinco anos, o Pix deixou de ser apenas uma nova forma de pagamento para se tornar uma das maiores transformações da história do sistema financeiro brasileiro.
– Hoje, é difícil imaginar a minha e a sua rotina sem ele. Do pagamento do cafezinho à transferência entre empresas, o sistema desenvolvido pelo Banco Central passou a fazer parte do dia a dia de milhões de brasileiros. O que muitos não sabem é que existe nos Estados Unidos uma ferramenta com objetivo semelhante, chamada Zelle.
– Segundo os dados mais recentes divulgados pelo Banco Central, o Pix movimentou aproximadamente R$ 16 trilhões entre janeiro e maio de 2026, representando um crescimento superior a 26% em relação ao mesmo período de 2025.
Somente em maio, o Pix processou 6,311 bilhões de transações, movimentando impressionantes R$ 1,813 trilhão. Agora imagine o potencial econômico por trás desse sistema: se uma administradora internacional cobrasse uma taxa quase imperceptível de apenas 0,01% sobre esse volume, arrecadaria cerca de R$ 181 milhões em um único mês. Isso ajuda a entender por que o Pix desperta tanto interesse dentro e fora do Brasil.
– Por esta razão, o tamanho e a relevância alcançados pelo Pix não passaram despercebidos das instituições financeiras nacionais e internacionais, especialmente das administradoras de meios de pagamento que, antes mesmo do surgimento do Pix, avaliavam a implementação de soluções semelhantes ao Zelle e até mesmo utilizando o Whatsapp pra isso. A grande diferença é que muitos desses modelos seriam baseados na cobrança de tarifas por operação e possivelmente não ofereceriam a mesma eficiência, alcance e integração do sistema criado pelo Banco Central.
– Duas propostas parecidas, resultados muito diferentes
O Zelle foi lançado nos Estados Unidos em 2017 por um grupo de grandes bancos americanos. Sua proposta era permitir transferências instantâneas entre clientes bancários sem a necessidade de TEDs ou cheques.
Três anos depois, em novembro de 2020, o Banco Central do Brasil lançou o Pix.
– Embora ambos permitam transferências rápidas, as semelhanças praticamente terminam aí.
O Zelle é uma plataforma privada, operada por instituições financeiras específicas e com alcance limitado ao sistema bancário americano. Já o Pix foi concebido como uma infraestrutura pública nacional, aberta a praticamente todas as instituições financeiras autorizadas pelo BACEN (Banco Central).
– Enquanto o Zelle permanece concentrado em transferências bancárias, o Pix rapidamente se tornou um meio de pagamento universal, utilizado por consumidores, empresas, pequenos comerciantes, autônomos e até órgãos públicos.
O grande diferencial do Pix
– O sucesso do Pix não aconteceu por acaso criando um sistema que resolveu três problemas históricos dos meios de pagamento brasileiros.
Primeiro, eliminou a espera por compensações bancárias.
Segundo, reduziu significativamente os custos das transações.
Terceiro, ampliou a inclusão financeira.
– Milhões de brasileiros que antes dependiam exclusivamente de dinheiro em espécie passaram a participar da economia digital. O próprio Banco Central atribui ao Pix uma importante contribuição para a bancarização da população brasileira. Atualmente, o Sistema Financeiro Nacional atingiu um patamar de bancarização de 96,4% da população adulta. Isso significa que mais de 200 milhões de brasileiros já possuem algum relacionamento com bancos por meio das contas digitais, poupança ou pelas chaves Pix. Graças, em boa parte, ao sistema de pagamentos mais popular do momento, os desbancarizados que são aquelas pessoas que não têm nenhuma conta bancária ativa representam hoje menos de 4% dos adultos
Hoje, o Pix responde por mais da metade das transações eletrônicas realizadas no país, superando cartões e outros meios de pagamento em quantidade de operações.
– Por que os Estados Unidos passaram a olhar para o Pix?
Nos últimos anos, órgãos comerciais americanos passaram a citar o Pix em documentos relacionados a disputas comerciais com o Brasil.
– A principal alegação é que o sistema desenvolvido pelo Banco Central poderia criar vantagens competitivas em relação a empresas privadas estrangeiras do setor de pagamentos.
– Na prática, porém, o debate é mais complexo onde primeiramente o Pix não é uma empresa competindo com outras empresas. Ele funciona como uma infraestrutura pública de pagamentos, semelhante ao papel que estradas exercem para o transporte de mercadorias.
Segundo o próprio Banco Central, o objetivo do sistema é aumentar a eficiência, a inclusão financeira e a concorrência entre instituições financeiras, e não substituir o setor privado.
– Existe risco de os EUA acabarem com o Pix?
– A resposta a esta dúvida é que não pois, o Pix é uma infraestrutura nacional operada pelo Banco Central do Brasil e nenhum governo estrangeiro possui autoridade para determinar seu encerramento ou impedir seu funcionamento.
– O que pode ocorrer são pressões comerciais ou discussões regulatórias envolvendo empresas internacionais de pagamentos. Porém, o grau de adoção alcançado pelo Pix pelos brsileiros torna extremamente improvável qualquer retrocesso significativo. Atualmente, ele é utilizado por praticamente toda a população economicamente ativa do país e movimenta trilhões de reais anualmente como vimos acima.
– Os desafios reais do Pix
Se existem riscos para o futuro do Pix, eles não estão em Washington.
Estão principalmente na segurança digital e no combate às fraudes.
Assim como ocorreu com cartões, internet banking e aplicativos financeiros, criminosos têm desenvolvido novos golpes para explorar usuários desatentos. Especialistas apontam que os ataques evoluem constantemente, exigindo investimentos contínuos em tecnologia e educação financeira.
– Por isso, o maior desafio não é geopolítico e sim, garantir que a inovação continue acompanhada de segurança para manutenção da confiabilidade do sistema de pagamentos de criação 100% nacional.
– A comparação entre Pix e Zelle revela algo importante: o Brasil deixou de ser apenas importador de tecnologia financeira para se tornar referência mundial em meios de pagamento instantâneos, ou seja, o interesse internacional em torno do Pix é consequência direta desse sucesso.
– Isso não significa que o sistema esteja ameaçado por governos estrangeiros, mas demonstra que uma inovação brasileira passou a ocupar espaço relevante em um mercado global altamente competitivo.
– Para os usuários, a principal preocupação deve continuar sendo a mesma: utilizar a tecnologia com segurança e aproveitar os benefícios de um sistema que transformou a maneira como o dinheiro circula no país.
– Porque, no fim das contas, o maior patrimônio do Pix não é tecnológico. É a confiança conquistada junto aos 200 milhões de brasileiros bancarizados e os 4% dos adultos que ainda não são.

Rogério Nakata é Planejador Financeiro CFP® da Economia Comportamental e palestrante sobre os temas educação financeira e planejamento financeiro em grandes organizações públicas e privadas.
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