Pessoas comuns, com uma vida comum

Em um sábado à tarde, coloquei meu filho na garupa da bicicleta e ficamos andando pelo bairro. Uma rua após a outra, em momentos freando e aguardando os carros passarem; em outros momentos, subindo nas calçadas, driblando as árvores, com muito cuidado para ele não cair. Quando estávamos em uma rua completamente vazia de pessoas e carros, aumentava a velocidade do pedal, e a criança vibrava com sua franja balançada pelo vento. Não havia nada mais que pudesse ser extraordinário.

Há dias em que a cadeira fica na calçada e as crianças brincam entre caminhões com rodas faltando, folhas e galhos da árvore caídos ao chão. Enquanto, na calçada, nosso tempo passava, observávamos carros passando e passando, com motoristas expressando muita pressa pelas sobrancelhas. No final, é preciso varrer a calçada e levar as crianças direto para o banho antes de jantar. Anoiteceu, escovamos os dentes, dormimos todos no sofá. Lá vão elas sendo carregadas para a cama. Nada extraordinário.

Assistindo novamente a um filme gravado em 1993, a personagem, na cena, resolvia ligar para a família e foi a um orelhão. A esposa atendeu no telefone fixo da casa. Pela primeira vez, senti saudade desse tempo que era quase uma imposição não ter pressa, saber esperar, aguardar antes de tomar decisões. Com celulares na mão e aplicativos de mensagens, voz e vídeo, tudo precisa ser rastreado, no desespero por aguardar alguns segundos. A impaciência se impõe.

Nos dias atuais, stories precisam ser recheados de felicidade, de viagens incríveis, de experiências únicas, de sentimentos intensos e extravagantes. É uma constante disputa de convencimento de que a “minha grama é mais verde”. Todo mundo é o arquétipo da felicidade, do bom humor, dos casais superapaixonados, dos filhos perfeitos, do profissional bem-sucedido, do muito criativo, da beleza instagramável, da vida de vitrine. Tudo extraordinário demais, ansioso demais, com rebotes que levam cada vez mais para baixo.

Em Modernidade Líquida e Cegueira Moral, Baumann afirma que os laços precisam ser vistos e tratados como algo a consumir e não a produzir, isto é, as pessoas precisam do modelo do vizinho a todo momento, de comparações e de modelos que precisam ser consumidos como garantidores de felicidade, tal como um produto. Nós, nas redes sociais, somos esse produto vendido a todo tempo, apesar de toda a superficialidade. Se a religião foi chamada de ópio do povo, e o consumo tomou o seu lugar, hoje é o consumo da vida interpretada.

Basta um profissional ganhar destaque pela sua competência, logo precisa adaptar a sua aparência, as suas roupas, o seu biotipo para as pessoas, e isso se estende aos pastores pregando nos púlpitos, exibindo braços delineados tanto quanto o dono da academia. No final, o que importa é ser saudável, mas tenha músculos! A vida precisa ser extraordinária demais para nos entreter quando estamos cansados do trabalho e fugimos do tédio pelas redes sociais.

Ninguém é mais comum como tranquilamente faziam nossos avós no final da tarde, sentados na varanda, batendo um papo. Todos possuem pressa para aparecer e, enquanto a capacidade dos objetos expostos apresenta uma satisfação reduzida, nossos raciocínios e vocabulários diminuem. E, deprimidos, não encontramos o caminho do comum, que é aquele lugar privado não substituível por objetos, aparência e necessidades de exposição. E a vida que se encontra no ordinário se torna uma saudade. Eis o segredo.

Gustavo Montoia é geógrafo e doutor em Planejamento Urbano e Regional pela UNIVAP. É docente dos Colégios Univap e da EE Francisco Feliciano F. da Silva (Verdinho) e pesquisador-colaborador do Laboratório de Estudos das Cidades da Universidade do Vale do Paraíba. @semanariojornal

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