O Jesus sequestrado pelo discurso político

No evangelho de Lucas, capítulo 20, nos versículos 9 a 18, Jesus contou uma parábola do dono de uma vinha, que, estando ausente do país, mandou funcionários para verificarem a colheita junto aos lavradores. Todos os funcionários que enviou foram mortos ou expulsos pelos lavradores que queriam roubá-la. Então, o dono decidiu enviar o filho, pensando que, sendo seu representante legítimo, seria respeitado. Até o filho foi morto.

Esta mensagem foi uma provocação aos religiosos da época que desejavam se apropriar do discurso religioso, verdadeiro e fundamentado, com a intenção de exercer poder político. Os sacerdotes e escribas da época mataram profetas enviados por Deus e matariam o próprio filho, Jesus.

Da mesma maneira, em diferentes épocas, poderes religiosos e políticos se apropriaram da mensagem cristã com o intuito de exercer poder e domínio sobre as pessoas. O contrário também existiu: no socialismo soviético do século XX houve a proibição da religião e o Estado foi colocado como detentor da verdade acima de qualquer outro simbolismo.

Atualmente, assistimos à apropriação da fé cristã por partidos de direita. Na mensagem baseada em costumes e valores, defender a família nuclear ou a elaboração de leis com base na religião são discursos e ações constantes. No início deste século, partidos como PSDB usavam a imagem da religião na conduta dos seus candidatos, a fim de ter apoio de setores das igrejas católica e evangélica.

Desde 2018, o cenário se radicalizou com o bolsonarismo adotado praticamente como doutrina religiosa, pois a afirmação “não existe cristão de esquerda” enquadra o evangelho em uma época histórica que não lhe pertence. Nesse discurso inflamado, muitos defendem elaboração ou revogação de leis com base em supostos princípios cristãos que mais parecem uma sharia versão Bíblia Sagrada, na legalização de um comportamento pela fé que deveria ser voluntário, não obrigatório.

A presença de evangélicos em partidos de esquerda, ainda que em número menor, era algo tratado como apenas uma opção, e a esquerda se apropriava do evangelho na defesa dos pobres, de ações sociais, pela liberdade dos oprimidos diante do capitalismo, na chamada teologia da libertação. Atualmente, é a busca moral de um socialismo cristão, de um Jesus a favor de minorias, em combate aos supostos “coronéis da fé” na tentativa, inclusive, de se opor a esta extrema-direita, e muitos defensores afirmam que Jesus só poderia ter sido de esquerda.

A quem Jesus pertence?

Primeiro, não existiam sequer essas ideologias políticas na constituição da própria fé cristã nem durante a construção do cânone bíblico (deveria ser óbvia essa compreensão). Segundo quem realmente quer uma leitura honesta do evangelho encontrará que Jesus não possui compromisso com as ideologias e os sistemas construídos pelas sociedades ao longo dos séculos, pois disse: “o meu reino não é deste mundo”. Contradições serão encontradas em todas as correntes cristãs, como em todas as ideologias que tomaram conta do debate político. Por fim, ninguém tem a prerrogativa de pensar que interpreta melhor o evangelho, menos ainda os partidos e movimentos políticos.

Jesus Cristo, apesar de ser sequestrado pela extrema direita, apesar de tentar ser patenteado pela esquerda, apenas revela que as pessoas não querem sua mensagem. O desejo é instrumentalizá-la, tal como em sua parábola, pois as pessoas não querem o Filho, querem sua mensagem para moldá-la às suas próprias convicções. Reduzir Jesus à moral e aos bons costumes, ou exclusivamente às causas sociais, é perder de vista sua mensagem. Deveria restar o silêncio e o respeito por aqueles que apenas pensam que podem atribuir-lhe somente suas convicções pessoais e ideologias, sem entender que estereotipam o que vem a ser cristão.

Essa disputa pela narrativa religiosa apenas produz jargões e imagens que não fazem parte da vida do cristão comum, nem o definem, nesta heterogeneidade do que vem a ser evangélico, por exemplo. Não adianta fazer arminha na mão ou publicar um Jesus com roupa militar na defesa do Estado de Israel, nem pensar que se produz inovação com um Jesus parecido com Che Guevara, pois, como afirmam David Gooding e John Lennox, em sua obra A Definição do Cristianismo, nas mãos dos homens que desejaram usar a mensagem religiosa, a bel-prazer, terríveis exemplos foram produzidos, igualmente àqueles que adotaram uma ideologia com uma convicção e uma fé quase religiosa. As duas vias conduzem ao mesmo caminho no Brasil: à polarização efetiva, a um discurso que produz violência.  

Geógrafo, doutor em Planejamento Urbano e Regional pela UNIVAP, professor da educação básica há 23 anos e pesquisador do Laboratório de Estudos das Cidades. Colunista do Jornal Semanário de Jacareí.

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