Após a reeleição de Lula, como ficam a economia brasileira e as finanças pessoais?

Volatilidade nos mercados, juros, dólar e incertezas fiscais reforçam a importância do planejamento financeiro e de decisões conscientes para proteger o orçamento familiar.

- A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva abre um novo capítulo para a economia brasileira e traz questionamentos para investidores, trabalhadores, empresários e famílias: o que pode acontecer com os juros, a inflação, o dólar e o custo de vida? E, principalmente, como devemos cuidar do nosso dinheiro diante desse cenário?

-  A primeira reação do mercado financeiro foi intensa. No pregão de 26 de outubro, o dólar comercial fechou em alta de 8,21%, cotado a R$ 5,40, enquanto o Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, recuou aproximadamente 13,88%. A movimentação refletiu a surpresa dos investidores com o resultado eleitoral e a revisão das expectativas sobre a condução da política econômica.

-  Mas é importante separar a reação imediata dos mercados dos efeitos que serão percebidos no cotidiano. Uma queda expressiva da Bolsa em um único dia não determina, por si só, o desempenho da economia nos próximos quatro anos. Os resultados dependerão das decisões do governo, da política fiscal, da atuação do Banco Central, do comportamento da inflação e das condições econômicas internacionais.

O que pode mudar no bolso dos brasileiros?

-  Um dos principais pontos de atenção será a trajetória das contas públicas. A capacidade do governo de equilibrar receitas e despesas, controlar o crescimento da dívida e apresentar regras fiscais confiáveis influencia a percepção de risco dos investidores. Se houver dúvidas sobre a sustentabilidade das contas públicas, os juros futuros podem subir, encarecendo o financiamento para empresas, consumidores e para o próprio governo.

-  O dólar também merece atenção. Uma moeda americana mais cara pode pressionar os preços de produtos importados, combustíveis, insumos e outros itens ligados ao mercado internacional. Esse efeito, porém, não é automático nem acontece na mesma proporção para todos os produtos. A inflação dependerá também das condições de oferta e demanda, dos preços internacionais e da política monetária.

-  Para as famílias, a combinação entre inflação persistente, crédito caro e orçamento apertado pode reduzir o poder de compra. Por outro lado, emprego, renda, produtividade e medidas econômicas consistentes também serão determinantes para o bem-estar da população.

-  O desafio, portanto, não é apenas observar a reação da Bolsa ou a cotação do dólar, mas acompanhar como as decisões econômicas se transformarão em preços, oportunidades de trabalho, condições de crédito e capacidade de poupança.

Investimentos: calma, estratégia e visão de longo prazo

-  Em momentos de forte oscilação, é natural sentir insegurança. Entretanto, vender investimentos por medo ou mudar completamente a estratégia a cada notícia pode transformar uma perda temporária em prejuízo efetivo.

-  Investir é uma jornada, não uma corrida de 100 metros. A carteira deve estar alinhada aos objetivos financeiros, ao prazo de utilização dos recursos, à necessidade de liquidez, ao perfil de risco de cada pessoa, mas, principalmente alinhado aos projetos de vida das pessoas e das famílias.

-  Isso não significa ignorar os acontecimentos ou ser imprudente. Significa avaliar se as mudanças alteram efetivamente os objetivos ou os fundamentos dos investimentos, em vez de tomar decisões apenas pela emoção do momento. Esfrie a cabeça e espere a poeira baixar. Uma revisão periódica da carteira é sempre importante, independentemente de troca de governos ou de manutenção deles, respeitando a diversificação e a capacidade individual de suportar riscos.

-  Também é importante lembrar que investimentos diferentes respondem de maneiras distintas às mudanças nas taxas de juros, na inflação e no câmbio. Não existe uma aplicação ideal para todas as pessoas ou para todos os cenários, por isso a importância de ter clareza não somente dos objetivos, mas quando estes recursos aplicados serão utilizados.

O que fazer agora com as finanças pessoais?

-  Independentemente de preferências políticas, algumas atitudes continuam fundamentais:

1. Organize seu orçamento. Conheça suas receitas, despesas, dívidas e capacidade real de poupança. Em períodos de incerteza, saber para onde vai cada real faz diferença.

2. Preserve sua reserva de emergência. Mantenha recursos de fácil acesso e baixo risco para imprevistos, dimensionados conforme suas despesas e a estabilidade da sua renda.

3. Tenha cautela com novas dívidas. Antes de contratar empréstimos ou financiar compras, compare o Custo Efetivo Total (CET) e avalie se as parcelas cabem no orçamento, inclusive em um cenário de taxas de juros elevadas. Evite dar um passo maior que a sua capacidade financeira pode suportar, não ultrapassando 20% de seus compromissos totais com financiamentos e empréstimos.

4. Evite decisões por impulso. Não compre ou venda investimentos apenas por causa de manchetes, comentários nas redes sociais ou previsões que prometem certezas sobre o futuro. Lembre-se de que o mercado financeiro errou 95% das previsões em um levantamento de grande repercussão que analisou projeções econômicas entre 2021 e 2024. As previsões eleitorais também podem falhar quando se aposta que o desempenho do primeiro turno será necessariamente repetido no segundo. Afinal, resultados anteriores e tendências estatísticas não garantem o desfecho de uma eleição, assim como projeções econômicas não são certezas sobre o futuro.

5. Continue investindo de forma frequente conforme seu planejamento. Se sua renda, seus objetivos e sua capacidade de poupança permanecem os mesmos, uma oscilação pontual não exige necessariamente uma mudança radical de estratégia.

O futuro econômico não está definido

A reeleição presidencial muda as expectativas e coloca a condução da política econômica novamente no centro das atenções. A estabilidade fiscal, o controle da inflação, o crescimento sustentável e a geração de empregos serão fatores decisivos para o desempenho do país.

Para cada cidadão, porém, existe uma parte dessa equação que pode ser administrada desde já: a própria vida financeira.

Não conseguimos controlar o dólar, a Bolsa ou as decisões do governo, mas podemos controlar melhor nosso orçamento, nossa capacidade de poupança e a qualidade das decisões que tomamos com o dinheiro.

Em períodos de incerteza, informação confiável, disciplina e planejamento tornam-se ainda mais importantes. O melhor caminho não é agir por pânico nem ignorar os riscos, mas avaliar o cenário com serenidade, rever a estratégia quando necessário e manter o foco nos objetivos de curto, médio e longo prazo. E para isso conte sempre com o apoio de um planejador financeiro com a certificação CFP®!

Rogério Nakata: é Planejador Financeiro CFP® da Economia Comportamental e palestrante sobre os temas educação financeira e planejamento financeiro em grandes organizações públicas e privadas. E-mail:atendimento@economiacomportamental.com.br
WhatsApp: (12) 3014-3452

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