
Começarão as campanhas eleitorais e lá vamos nós escutar mais uma vez que “no meu tempo a educação era boa”, “houve uma época que tinha escola pública de qualidade”. Tudo mentira. Sem refutar esses chavões “engana trouxa”, educação de qualidade era de uma escola totalmente elitizada. Quando foi estendida, por direito, à população, o projeto era aprender a apertar botões, não pensar.
Professor respeitado era aquele que ensinava a completar frases, a decorar sílabas e a falar “sim, senhor”. Com exceções, a carreira do magistério era vista como extensão da maternidade e, com tal machismo, não precisava ganhar muito bem para cuidar dos filhos.
Os problemas continuaram os mesmos, apenas se tornaram exponenciais. É tão real que as promessas para a Educação são as mesmas, ou a única novidade é privatizá-la para o iluminado Mercado “mamar nas tetas” do Estado. No estado-espelho do Brasil, São Paulo, a mesma empresa que cuida de funerárias é a que deseja a Parceria Público-Privada do Tarcísio. Enterrar defuntos e ensinar crianças têm profunda relação (vou justificar que é ironia, porque pensar não é para muitos, ultimamente).
A Educação do Estado de São Paulo, então, resolveu avançar. O professor, a depender da disciplina, passa a maior parte de seu tempo administrando o uso de plataformas que supostamente explicam o conteúdo. Algumas delas oferecem vídeos curtos de explicação para entreter o estudante na tentativa de substituí-lo. Se o aluno não atingir a nota mínima no bimestre, realiza prova de recuperação on-line. A proibição dos celulares é mais uma medida banalizada, pois os próprios alunos precisam deles, dentro das escolas, para usar as plataformas, uma vez que não há computadores suficientes. Gestão e professores são pressionados para o uso destas tecnologias. Sabia que, se o sistema não funcionar para o professor fazer chamada, ele terá que fazê-la em casa? Sabia que ele corre o risco de ficar com falta no trabalho?
Em Jacareí, a prefeitura municipal treina professores com botão de emergência diante de casos de extrema violência. Chegamos a uma situação tão vergonhosa que o profissional tem que ser treinado para possíveis eventos como esses, ainda que ocorram poucos episódios. Essa medida oferece sensação de segurança e gera votos. Contudo, as maiores necessidades da Educação, que, todos os dias, “arrombam as portas”, “quebram as janelas” e chegam com a violenta sensação de incapacidade, são a falta de recursos, a falta de profissionais de apoio e as salas lotadas (como o 1º ano dos Anos Iniciais tem 30 alunos?).
A verdade é que a Educação é um cachorro correndo atrás do próprio rabo: soluções eleitoreiras, que oferecem estatísticas, mas que nunca produzem resultados reais. Isso mantém o discurso de sempre: se algo dá errado, a culpa é do professor. Inclusive, como afirmou categoricamente uma apresentadora de telejornal, a escola deveria cuidar dos filhos durante o jogo da Copa. Não é a escala 6×1 que é nefasta, não são os baixos salários, a falta de creches, as mais de 8 horas de trabalho diárias, é a escola que é o problema. Agora, a escola também deposita crianças.
Se voltássemos a uma escola de giz e lousa, com poucos computadores e tivéssemos apenas livros didáticos, mas a verdadeira realidade fosse discutida, nossos índices seriam muito melhores e seriam reais. Mas ninguém quer discutir a realidade: as condições de trabalho do professor, as regras de conduta nas escolas, a má remuneração do magistério.
Com o que ocorreu recentemente em SJC, todos ficam indignados, querem punição aos adolescentes, evocam a saudade de uma escola linha-dura, desde que não sejam seus filhos. O caso provavelmente ficará abafado e a professora entrará em sala de aula com o sarcasmo no rosto dos alunos, pois “não podemos ‘culpabilizar as verdadeiras vítimas’; a professora é a adulta da sala de aula”. Provavelmente, frases como essas são ditas por engenheiros e administradores de empresas nomeados Secretários da Educação.
O buraco é mais embaixo. Muito mais embaixo. E, enquanto todos que não estudam licenciatura querem opinar o que um professor deve ser e fazer, somente ele desce todos os dias para o fundo que fica mais fundo.

Gustavo Montoia é geógrafo e doutor em Planejamento Urbano e Regional pela UNIVAP. É docente dos Colégios Univap e da EE Francisco Feliciano F. da Silva (Verdinho) e pesquisador-colaborador do Laboratório de Estudos das Cidades da Universidade do Vale do Paraíba. @semanariojornal
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