Sem poesia, somos soldadinhos de chumbo nas eleições

. Nessa corrida eleitoral em que todos são jogados aos leões e a plateia apenas vibra, em que os discursos são realizados para excitar e não propor, apego-me aos fatos: dados, comparações, resultados, pensamentos acadêmicos consolidados (prefira sempre os clássicos!), explicações claras, evidências, processos que possam ser seguidos, normatizações capazes de se sustentar, datas, Leis, registros históricos e contexto. Ufa! Essas são as minhas bases fundamentais para a discussão material da realidade.

. Contudo, onde está a metáfora? Onde está a Filosofia? Onde a poesia esquadrinha nossos corações ou as canções movem nossos sentimentos? Onde estão as letras que não prometem uma literalidade para, justamente, promover o debate? Questionei isso ao ler um poema de Carlos Drummond de Andrade, A Máquina do Mundo. Na reflexão sobre o que estava escrito, percebi que estava buscando um sentido literal, entendendo o contexto que o autor escreveu e perdi as nuances de um pensamento poético, que é refletir sobre a existência, as emoções, as entrelinhas que afirmam algo sem a dureza de um sincericídio.

       . Gosto tanto de poesias, de metáforas e de reflexões que me adverti que isso não posso perder, porque, nos últimos tempos, a relativização das mensagens tem me incomodado. Se um texto pode significar tudo, então ele não significa nada. Se, por exemplo, um texto bíblico pode servir para qualquer mensagem, é que ele não significa nada ou alguém está ignorando seu teor histórico, etimológico, sua teologia e até os cuidados ao trazer a nós a sua contemporaneidade.

. Quando olho as postagens nas redes sociais, vejo que as republicações apenas excitam, ou são cheias de caçadores de conspirações, na busca quase insana pelo que “está por trás” junto com gritos, acusações e julgamentos antes de análises. Se alguém supõe uma Lei, no lugar de discutir, refletir, analisar, buscar comparações, logo acusam que será usada para perseguição. Se ideias consagradas na arena política são questionadas, restam xingamentos e uma verdadeira inquisição no tribunal da internet e nos processos com acusações criminais.

. Eu quero o lugar onde razão e emoção se encontram, onde somos capazes de pensar em nós, de pensar além de nós, de construir dentro de nossas mentes e assentar nossos sentimentos à realidade cabível a todos e de peneirar nossas ações em um exercício de autocrítica. É assim que vencemos a nossa capacidade de sermos perversos sem perceber e de nos retirarmos das multidões movidas pelo ódio. Quando Hannah Arendt cunhou o termo “banalidade do mal”, falava justamente da mecânica de nossa vida e do cumprimento de nossas obrigações sem julgamento moral nenhum. A ausência da poesia nos aliena.

. A rotina cansativa, aliada ao espetáculo da política, nos deixa raivosos ou excessivamente apaixonados e nos incapacita para pensar criticamente. Isso pode nos tornar agentes do mal, rígidos na forma de pensar, sem perceber as entrelinhas, apenas mecanizados pela resignação. Nas últimas corridas eleitorais, a política se tornou uma reza repetida e cansativa para justamente não provocar a reflexão que liberta, mas para criar soldadinhos de chumbo presentes em um coliseu, não em uma ágora*.

*Ágora, é um termo grego que significa reunião de qualquer natureza / local de debate público em Atenas.

Gustavo Montoia é geógrafo e doutor em Planejamento Urbano e Regional pela UNIVAP. É docente dos Colégios Univap e da EE Francisco Feliciano F. da Silva (Verdinho) e pesquisador-colaborador do Laboratório de Estudos das Cidades da Universidade do Vale do Paraíba. @semanariojornal

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