Qual é a sua origem? 31 de agosto-Dia Internacional das Pessoas Afrodescendentes

Esta é uma pergunta que muitas pessoas respondem com orgulho. Há quem fale dos avós italianos, alemães, poloneses, portugueses, japoneses ou indígenas. Há cidades inteiras que preservam sotaques, culinárias, festas típicas e tradições transmitidas de geração em geração. Em diferentes regiões do Brasil, valorizar as próprias raízes é motivo de celebração.

A história faz parte de quem somos. Ela nos ajuda a compreender o caminho percorrido, as dificuldades superadas e as conquistas daqueles que vieram antes de nós. Conhecer o passado nos permite entender o presente e imaginar um futuro melhor.

O filósofo espanhol George Santayana afirmou: “Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo.” Talvez seja por isso que somos constantemente convidados a conhecer nossas raízes, compreender a realidade daqueles que nos antecederam e reconhecer como suas escolhas continuam influenciando o presente.

Mas existe uma pergunta que nem sempre estamos dispostos a fazer: por que algumas histórias são celebradas enquanto outras permanecem silenciadas?

Temos orgulho de nossas raízes até o momento em que elas nos obrigam a encarar as desigualdades que também ajudaram a construir o país.

O Brasil foi construído por milhões de pessoas escravizadas. Durante mais de três séculos, homens, mulheres e crianças africanos foram sequestrados de seus territórios, transportados em condições desumanas e forçados a trabalhar para sustentar uma economia que ajudou a formar o país que conhecemos hoje. A riqueza produzida por essas mãos negras está presente nas cidades, nas estradas, nos portos, na agricultura e nas instituições brasileiras.

Laurentino Gomes escreve: “Sem a escravidão o Brasil de hoje simplesmente não existiria. A escravidão é um fantasma que nos assombra até hoje porque nos recusamos a estudá-lo e encará-lo mais a fundo.”

Ao contrário de outras heranças históricas frequentemente exaltadas, a escravidão costuma ser tratada como um capítulo distante, encerrado no tempo. Como se a assinatura da Lei Áurea tivesse apagado, de uma vez, suas consequências.

Mas não apagou.

As desigualdades raciais observadas no Brasil de hoje – na renda, na educação, na moradia, no acesso à saúde e até na expectativa de vida – não surgiram por acaso. Elas têm raízes profundas em um processo histórico que, por gerações, excluiu a população negra do acesso à terra, à educação, ao trabalho digno e a direitos fundamentais.

Em 2024, a taxa de analfabetismo entre pessoas pretas e pardas era de 6,9%, mais que o dobro da observada entre pessoas brancas, de 3,1%. Entre idosos, a desigualdade é ainda mais profunda: 21,8% dos pretos e pardos com 60 anos ou mais não sabiam ler nem escrever, enquanto entre os brancos esse percentual era de 8,1%.

As diferenças também aparecem na renda. Dados do IBGE mostram que trabalhadores pretos e pardos continuam recebendo rendimentos inferiores aos dos trabalhadores brancos, refletindo uma desigualdade que atravessa gerações.

E elas não terminam na escola ou no mercado de trabalho. Um estudo recente da UFMG estimou que homens negros vivem, em média, quase seis anos menos que homens brancos no Brasil. Entre as mulheres, a diferença na expectativa de vida também permanece significativa. São evidências de como as desigualdades sociais e raciais continuam influenciando quem tem mais oportunidades, quem vive mais e quem morre antes.

Quando ignoramos a história e suas mazelas, também ignoramos a vida de milhares de pessoas que não tiveram direito de escolha sobre seu destino. Diferentemente de quem migrou para o Brasil em busca de um novo lar, milhões de africanos chegaram ao país sequestrados, escravizados e privados de liberdade.

Ao invisibilizar essa história, transformamos a desigualdade em algo aparentemente natural.

Reconhecer a escravidão como parte central da formação do Brasil não significa cultivar culpa. Significa cultivar solidariedade e responsabilidade. Como sociedade, não devemos esconder as cicatrizes da história. Devemos conhecê-las, compreender suas causas e trabalhar para que não continuem produzindo sofrimento e desigualdades.

A escravidão não é apenas um capítulo da história brasileira. É uma das bases sobre as quais o país foi construído.

O Brasil celebra muitas de suas memórias. Festas típicas, monumentos, idiomas, receitas, costumes e histórias são transmitidos com orgulho entre gerações. Mas existe uma parte da nossa origem que continua cercada de silêncio.

Por isso, a pergunta “Qual é a sua origem?” talvez seja também uma pergunta para o Brasil.

Um convite para olhar para trás sem romantizações, sem medo e sem silêncio. Afinal, uma sociedade que conhece sua história é capaz de transformar seu futuro. Já uma sociedade que escolhe esquecer acaba convivendo com as marcas de um passado que nunca passou.

Daniela Tafner.: doutora em enfermagem e especialista em saúde da população negra

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