Nestas eleições, retire-se

Você está cansado das disputas políticas. Nós estamos cansados. Pesquisas de opinião, como Quest, DataFolha, Meio/Ideia têm apontado que o brasileiro não se identifica com essa polarização afetiva. O perfil dos candidatos políticos também está, em média, mais velho, ou seja, a maioria dos candidatos é homem com média de 49 anos. E, apesar do aumento da participação feminina, pessoas dispostas a concorrer aos cargos são em menor número do que em 2022, quase 30% a menos, aponta a Agência DW Brasil. Será isso uma descrença?

Nunca assistimos no Brasil tamanha brutalidade devido às eleições: rompimentos familiares, ofensas nas redes sociais e até assassinato. As pessoas estão cansadas destes comportamentos que deixam todos à flor da pele. Ficamos em estado de alerta e de hipervigilância só de pensar na patrulha de plantão em casa, no ambiente de trabalho e no fiscal das redes sociais. É realmente desanimador observar a banalização de conceitos, o fundamentalismo ideológico (essa radicalização para tudo) e as postagens sem o menor constrangimento de desinformação. Quase tudo é motivo para escândalo e para colocar em uma inquisição aquele que pensa diferente.

A boa notícia é que as pesquisas indicam que o brasileiro não aguenta mais isso. O único risco é cair na resignação, e talvez, esse seja um dos motivos da falta de renovação na política. Tudo isso que adoece, sufoca novos talentos ainda na semente. Essa polarização afetiva favorece apenas a classe política, que se perpetua com baixíssimo compromisso social, enquanto a população, no lugar de divergir de ideias e separar o sujeito do tema, o condena pelo que ele disse e o desumaniza. Esquece que o sujeito é muito mais a figura manifestada no cotidiano do que na ideia que remeteu. Ninguém é um dado absoluto.

Assim, nestas eleições, retire-se. Esfrie sua cabeça no lugar de rejeitar o outro. Deixe suas opiniões em suspensão em um processo de reflexão e ouse ler o contraditório. Acompanhe análises com base em fatos, que, apesar de até possuírem alguma predisposição, não abandonam a crítica e a autocrítica. Não se encolerize com recortes de vídeos e notícias em formato de imagem. Espere. Verifique. Repense. Tudo aquilo que se tornou ameaça, medo, que foi conspiratório, provavelmente não mudou em nada o seu ou o meu cotidiano. Deixe de lado as redes sociais, os grupos de WhatsApp e os sites sem a menor verificação e vá para a realidade da sua vida, pois, “no final eles jantam, nós nos matamos”.

Gustavo Montoia é geógrafo e doutor em Planejamento Urbano e Regional pela UNIVAP. É docente dos Colégios Univap e da EE Francisco Feliciano F. da Silva (Verdinho) e pesquisador-colaborador do Laboratório de Estudos das Cidades da Universidade do Vale do Paraíba. @semanariojornal

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