Vereador não faz obra de caridade

Não é função de um vereador realizar obra de caridade; aliás, suas ações não consistem em favores e nem em atos supostamente voluntários para performar virtude. Pelo Brasil afora, a função do vereador tornou-se meio de vida, e de suas obrigações pouca satisfação ocorre.

Na era das redes sociais – essa é a tônica do mundo –, gravar vídeos abraçando crianças, ouvindo idosas ou apertando as mãos de trabalhadores suados, é apenas a representação da vida do benfeitor, com salário às custas de nossos impostos. Imagine, com salário de 17 mil reais a partir da próxima legislatura…

Com a polarização afetiva que nos adoece, existe até vereador eleito que grava vídeos, traz ao debate temas nacionais e até internacionais, sem, contudo, representar qualquer lastro de sua função. É estéril o vereador que não consegue cumprir itens básicos de sua função, e, como ecos de uma lata vazia, vociferar indignações nas redes sociais ou propor falsas causas inconstitucionais é apenas o retrato de sua inépcia.

Com a necessidade de reparo em escolas e dificuldade de contratar acompanhantes para alunos com necessidades atípicas, já foi “bola da vez” propor exame toxicológico para professores. Sem dados estatísticos, sem pesquisas sobre o tema, atender a uma agenda pseudomoralista que desrespeita professores da Educação Infantil e dos Anos iniciais foi mais importante que a ausência de alimentos saudáveis na merenda escolar, o que representa uma priorização equivocada de políticas públicas.

Apesar de ser parte do jogo que a base governista atenda às necessidades do Executivo Municipal, não seria também de se esperar resultados mais eficazes para a cidade a partir do conjunto de vereadores que, em sua maioria, diz “sim e amém” para o Prefeito?

Quantos projetos de Lei inovadores e de acordo com as necessidades da cidade foram propostos pelos vereadores de Jacareí? Quantos foram aprovados? Onde está a eficiência nos bairros com necessidades urgentes? São tratadas com a mesma velocidade da votação para o aumento do próprio salário as necessidades de Veraneio Ijal, Vila Zezé ou Primeiro de Maio?

O vereador é o elo entre a população e o poder público local, criando leis e fiscalizando o Executivo. Dessa maneira, onde está a cobrança pela nova lei de Uso do Solo do município? Será que ficaremos com um novo Plano Diretor (ano de 2025) e uma Lei que o antecede? Está ainda em fase de estudo ou há uma inércia proposital para a verticalização da cidade? Apesar de ter muitas perguntas e poucas respostas, isso não significa que nada esteja sendo realizado pela prefeitura, entretanto, falta fiscalização ou, ao menos, divulgação.

Obra de caridade é boa, um ato religioso e um político pode se envolver para incentivar mais voluntários, mas é necessário tomar cuidado para justificar o ato de um vereador ou qualquer outro político eleito com base nessas funções. O sorriso de uma criança por uma ação voluntária não é maior do que seus dentes bem cuidados pela rede municipal ou pelo investimento adequado em todos os profissionais da educação, nos serviços e nos equipamentos escolares que mantêm pais confiantes no bom trabalho para deixar seus filhos nessas instituições durante uma jornada laboral diária que não tem sido fácil neste país.

Vereador é empregado e precisa trabalhar.

Gustavo Montoia é geógrafo e doutor em Planejamento Urbano e Regional pela UNIVAP. É docente dos Colégios Univap e da EE Francisco Feliciano F. da Silva (Verdinho) e pesquisador-colaborador do Laboratório de Estudos das Cidades da Universidade do Vale do Paraíba. @semanariojornal

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