CONHECENDO A HISTÓRIA- Benedicto Lencioni

UMA RUA CHAMADA AVENIDA(Lado direito números pares das casas)

Do lado esquerdo, para quem desce a Avenida Antunes da Costa, havia uma casa, hoje demolida, onde morou os descendentes do abolicionista Benedicto Manoel Pinto Ribeiro que, juntamente com Azevedo Sampaio, esteve preso como líderes do movimento abolicionista de Jacareí.

 Depois, nessa mesma casa, morou a família Junqueira, cujo filho Dirceu, professor, foi vereador, presidente da Câmara Municipal; escreveu dois romances que ficaram inéditos, era também poeta; existe no Bairro do São João uma unidade escolar com seu nome. Era irmão do José, da Adelina (Dica), Gabriela Eulália (Dinha), Marilena e da Lenira, cuja filha professora Beatriz, que foi sequestrada e morta.

Na casa vizinha, que era de taipa, morou Benedito Alves de Azevedo, que foi vereador em duas legislaturas. A casa teria pertencido à fazenda da família Ramalho, descendentes do famoso João Ramalho, que deu nome ao morro; onde existiam outros restos de construção de taipa pilão.

Na mesma casa morou minha falecida irmã a professora Flora, seu marido José Luiz e as duas filhas Célia e Clélia. José Luiz era filho do senhor Manoel, fazendeiro de Santa Branca, e fabricava aguardente. A Celinha tem três filhas: Mariana, Carolina e Marina. A mais velha casada mora na Finlândia e tem três filhos. A Carolina, arquiteta mora em São Paulo e a caçula Marina na Dinamarca. Cito, para mostrar essa dispersão da família pelo mundo.

Mais abaixo, numa casa que existe até hoje, havia uma família que morava de uma forma muito simples, verdadeiramente desprovida de qualquer coisa supérflua, moradia franciscana, sem qualquer aparelho elétrico, sem um quadro na parede branca: a família do senhor França. Um agricultor que possuía três filhas chamadas Maria, que morreram solteiras, a última neste ano de 2025 com mais de cem anos, num asilo em São Paulo. Este é um fato, que talvez um dia, escreverei melhor.

Ao lado, morou o senhor Francisco, sua mulher e vários filhos: Claudia, Francisco Odilon (Veludo – árbitro de futebol), Bernadete, Maria Aparecida, Rômulo, Carlos Alberto. Isabel e Vicente. Seu Chico, como o conhecíamos na intimidade, era pedreiro. Lembro-me bem dele, subindo a rua depois de uma cansativa labuta diária, homem educado.

Abaixo morava o Lau, que era funcionário da Prefeitura e gostava de sair no carnaval fantasiado, talvez pela última vez, de Zorro. Sua viúva Adolfina, faleceu recentemente e deixou apenas uma filha Regina, mãe de Beatriz, que me chama carinhosamente de “avô”. Na casa existia um papagaio que morreu no ano passado, com mais de 60 anos. Era muito falador, repetia tudo que ouvia e assobiava. Era uma “figura” que faz falta.

Em seguida, bem em frente onde moro, a moradia do senhor Aníbal Reis. Família grande: Célio, Evanilde que casou com Antenor, Zilda, Cida, e Carlos e Nilza. O senhor Aníbal era ferroviário; na rua haviam três ferroviários: Sr. Tonico e seu filho Tito, e Anibal.

No mesmo local mora hoje a família do Pascacio Calvo, casado com Marilia Moraes (minha cunhada que me socorre na lembrança dos nomes), neta do professor Sedalario, bisneta do abolicionista Benedicto Manoel Pinto Ribeiro. Pascacio, foi músico das orquestras Verano Câmara, Trianon, e do famoso Fila Bóia

Numa casa separada da rua por uma cerca de taquara, morava Dona Inez Shoji, viúva, calma, mãe do Mabito, do Roberto Shoji e do Davi.  O Roberto foi vereador, assim com o Azevedo, o Dirceu e eu, somamos quatro vereadores, que moravam e mora (eu) na avenida. Talvez nenhuma outra rua tenha tido tantos vereadores e presidentes da câmara municipal.

Numa pequena casa, de frente estreita e alta morava a Eunice com sua mãe viúva. Gente simples e boa. Viviam meio que isoladas, quietas; como os outros, antigos moradores.

         Depois, o prédio da banda – Corporação União Operária – que até hoje existe com a denominação na fachada. Mas a banda acabou. O tempo, esse vilão do presente e gerador da história, foi eliminando os músicos, até que deixamos de ouvir semanalmente os ensaios. A banda reunia gente modesta. Um dos músicos era seu Chiquito, o carteiro, que contei anteriormente, era um dos entusiastas. Lembro-me quando foi inaugurada a sede e meu pai doou bebidas para a festa. Mas, era também músico da banda, um médico o Dr. Renato, que se apresentava como todos, uniformizado, integrante feliz, fora de sua profissão. Na história temos lances curiosos.

Vizinha do prédio da Banda, morou uma irmã do Chico pedreiro, que morava sozinha.

Uma rua chamada avenida, tem muita história para contar. Hoje, na parte de cima, as últimas casas, tanto de um lado como do outro, não existem mais construções São terrenos vazios, cheios de mato, que emprestam à avenida, um aspecto de abandono e desolação. Tem poucas crianças, e muitos idosos. Ninguém mais conversa na porta da rua, nem janelas emolduram rostos. Ficou uma rua triste, ou melhor, uma avenida triste. É o tempo, esse vilão…

Pedro FRANÇA ao lado com sua Família

Lau e sua esposa Adolfina – falecidos

Lau, fantasiado de Zorro no carnaval

Pascácio Calvo, Marília e sua Família filhos noras e netos

Anibal Reis, esposa, filhos, neta e genro

Banda Corporação União Operária em ensaio, em sua sala na Avenida Antunes da Costa. No centro, embaixo, o Dr. Renato Egídio tocando clarineta.

Benedicto Sérgio Lencioni é professor, historiador, advogado, pintor, escritor e político de Jacareí. Escreveu diversos livros sobre a história da cidade. Foi vereador por duas legislaturas e posteriormente também foi prefeito por dois mandados.

MAIs LIDAS