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VOCÊ NÃO PRECISA DAR CONTA DE TUDO! – Odete Guerra

Conversando com uma amiga, refleti sobre o peso da responsabilidade que algumas pessoas sentem em dar conta de tudo. Durante a conversa, veio à mente a situação de um paciente a mim encaminhado com quadro de bruxismo e ansiedade, e que ainda havia infartado. Não obstante, este mesmo paciente, além do sedentarismo, ainda tinha como característica cuidar de todos a sua volta: mãe, irmãs, filhos, namorada. Quando chegou até mim, logo percebi que ele precisava de uma escuta acolhedora, compreendida e nomeada das suas próprias angústias; precisava falar do medo da morte, do sentimento de impotência e de fragilidade – fatores que exigiam dele uma capacidade psíquica de enfrentamento, de adaptação e de elaboração, pois ainda não conseguia compreender a abrupta e a inesperada transformação ocorrida em sua vida. Nestes casos de esgotamento físico e emocional, o preço pago pelo indivíduo é sempre muito alto, fruto de uma sobrecarga, seja psíquica ou física, que muitas vezes só é reconhecida depois que a exaustão leva ao chão. Assim, quem antes acreditava na sua onipotência – a ponto de assumir para si responsabilidades que são do outro – pode se tornar extremamente fragilizado e vulnerável. Durante tratamentos com este viés, compreendo e destaco comportamentos no paciente que permitem que ele próprio perceba quais responsabilidades tem assumido além de suas capacidades, frequentemente ocasionados pela ilusão psíquica do pensamento onipotente” – em que o sujeito cria para si a enganosa sensação de que é capaz de dar conta de tudo em detrimento da realidade, porém, menospreza a impossibilidade de manter controle sobre eventos externos, bem como sobre atitudes do outro. Questionados, por vezes, justificam tais comportamentos como sendo zelo, ou até mesmo chamam de senso de responsabilidade, quando, a bem da verdade, é uma falsa tentativa de garantir a segurança e a felicidade de todos. Destaque-se que, muito embora aparentemente pareçam boas as intenções, tem sido cada vez mais frequente ver pessoas com estafa, esgotamento mental, estresse, enfarto, entre outros transtornos resultados da tentativa de atender a tantas cobranças e urgências. Vale lembrar que, “supercontroladores” não compreendem o malefício de estarem alertas o tempo todo, uma vez que centralizar todas as tarefas, planejar o tempo todo, buscar a perfeição, não descansar a mente, resultará na exaustão mental. Por esta razão, a escuta de um profissional poderá ajudar a desconstruir e a transformar o desejo exacerbado de agradar e de resolver os problemas dos outros em ações que mantenham sim a generosidade, porém, sem desrespeitar o seu próprio tempo, seus próprios limites e as suas próprias necessidades. Ao compreender as verdades emocionais ocultas – como o predomínio da angústia excessiva de morte, o sentimento de perda de identidade, a impotência, o acreditar que não conseguiria dar conta das suas responsabilidades e ficar dependente – são motivos de desesperança de pacientes com estas características. No entanto, ao perceber esta realidade, o primeiro passo a ser dado é ressignificar e reestruturar, gradativamente, sua nova rotina para um estilo de vida mais saudável, compreendendo que as pessoas ao redor são capazes de proverem o próprio sustento. Desta forma, mister se faz acolher a ideia de que também precisa de cuidados, pois é humano, permitindo o controle da ansiedade, de modo a ter uma outra relação consigo mesmo, reavivando os sentimentos que estavam sem esperança.

Afinal, como podemos ser perfeitos num mundo tão imperfeito?

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