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Um dia tão lindo e tão perfeito assim

*Por Esther Rosado

Hoje, o dia amanheceu em sol aberto, tudo parece flutuar iluminado. Abro portas, janelas de par em par e penduro um sininho de vento na porta do corredor; se vento houver, ouço o anúncio da chegada dos anjos, criaturas que trabalham a serviço do Bem, nas quais creio piamente porque há motivos de sobra para isso; criatura cega que sou, como ver anjos? Mas posso ouvir o ruflar das asas quando alçam seus voos improváveis, mas perfeitamente possíveis e tomam conta dos caminhos por onde andamos.
Certamente, hoje o dia se anunciou dia como o primeiro dia do planeta. Que olhos de meus mil-avós puderam ver, há milhares e milhares de anos, um dia assim, tão perfeito? Penso no susto de um homem primitivo ao olhar o céu azul sem nuvens depois de tanto tempo refugiado na caverna hipotética.

Suspiro em frente à janela: ah!

Suspiro como se eu fosse uma voyeur do dia, espiadora de todas as coisas, dona de frestas e buracos das fechaduras, nesgas , aberturas, frinchas, fendas, possuidora de vãos, aquela que enxerga sem ser vista ou se deixa entrever: barra de saia, mechas de cabelo, ponta de orelha.

Espio o dia novo que vai acontecendo, observo que uma ou outra nuvem aparece no céu de lápis-lazúli, abóbada para quem quer olhar e ver.

Embora esteja frio, há mornidão no dia, peixes que nadam debaixo de todas as águas; há também asas que voam todas as hipóteses… Dia que refulge e abriga a folha que nasce, o fruto que virá, a semente que, debaixo da terra, trama a mais bela flor na impossível e bela haste. Um dia, o Inverno virá, depois a Primavera.

Olhando o dia, sinto o atrevimento das raízes, o desembrulhar das flores de uma orquídea, tal qual um laço de seda que se balança no ar até entregar-se, toda aberta, roxa e amarela, à mornidão que existe sob as folhas das árvores para ser, talvez, escondidamente desvendada.

Observo o dia, limpo como água que desceu montanhas; cheiroso como o pão recém saído do forno… O dia exibe-se para mim, eu , a que uso vendas, a que canta entre quatro paredes? A que toca violão por dois minutos, entre a manhã de trabalho sem fim e o jantar que compartilho com os meus.

Exibe-se o dia com seus vestidos de musselina, com seus barulhos preciosos e inesquecíveis, com seus olhos de enxergar coisas e pessoas, de observar. Ilumina-me o dia.

E assim, olhando pela janela aberta, sou também esta que tem veias que pulsam, que bebe o dia como quem bebe a transparência da boa água.

Deixo a janela aberta e pergunto-me sobre nomes antigos de portas e janelas: fenestra, ventana…ianua, ostium, tanta coisa, tantas palavras, que bobagem ter aprendido tudo isso… Penso numa grande árvore florida e em Beethoven, na Nona Sinfonia de Beethoven e na Ode à Alegria.

Quanto, quanto valerá ( em felicidade) um dia tão lindo e tão perfeito assim?

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