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Um dia, inesperadamente, voo

Julho se antecipa em primaveras miúdas e deixa florescer de novo meus mais-que-amados-ipês. O vento leve e frio que varre suavemente as ruas aparece com seus redemoinhos-bebês, carregado de folhas cor-de-rosa escuro. Esses ipês são, para mim, o fechamento de um ciclo: me ensinam que mais um ano passou, que logo o sol de setembro estará de volta e que poderemos nos espichar à beira d’água, ao comprido, fechando os olhos e sentindo o calor bom das épocas quentes do ano.

Mas julho, por enquanto, ainda não chegou e põe-me arrepios pelos braços. Descubro que a cada ano que passa, mais sinto frio e com que prazer calço meias de lã, à noite, e me enrolo em cobertores e durmo misturando tudo, realidade e fantasia.

Julho abrirá pétalas que, a rigor, deveriam esperar pelos fins de setembro; mas é sempre assim com a natureza: ela tem pressa de sei lá o quê, ela mostra aos encolhidos em casacos, vai voltar, espere mais só um pouco e volto trazendo margaridinhas amarelas, buganvílias incendiárias, gladíolos vermelhos, bocas-de-leão cor de tijolo ou carne, rosas e gloxínias, pencas de orquídeas roxas, uma imensidão de folhas novas e brotos, flores do campo, beijinhos e hortênsias. Ah, que olhos não viram chuvas-de-ouro?

Julho, como este mês, é para chás e cobertores. Mês fingido que só ele porque, no fundo, sabe que entranhada nos talos, escondida entre caules e folhas sedosas, lá está a Primavera com que sonhamos. Não está, apenas a flor e o caule e os brotos, mas a outra na qual acreditamos que nos tragam sempre os melhores jasmins de fins de outubro.

Quem nasce em julho, por isso, tem esta sede de jardins e seus mistérios insondáveis…

Quem nasce em julho tem este gosto por tinhorões e costelas-de-adão e grandes samambaias.

Quem nasce em julho esconde seus tubérculos na terra e, depois, exibe-se, inteiro, para mais uma Primavera que se apresenta.

Antes da Primavera, é sabido, os Invernos acontecem. Sempre. Mas esse vento suave, estas flores de ipê que rodopiam, me contam que é preciso viver. Reviver.

Então, mesmo que tenha nascido em dezembro, deixo vir meus botões. Assim, devagar, teço pétalas. E crisálida que sou, sonho asas mesmo que magoada ou triste.

Um dia, inesperadamente, voo.

Esther Rosado

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