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Ubuntu

Quando esfria assim, nestes tempos febris entre Outono e Inverno, penso que a pandemia levou gente que era amada, velhos e jovens adolescentes, jovens adultos, crianças, todos ainda com a cabeça cheia de sonhos. E, bem lá no fundo de mim, fico pensando: “Serei eu, Vida, a próxima?”

Nesses 5 meses passados, minha espinha arrepiou medos quando italianos começaram a morrer aos montes, como moscas. Depois espanhóis, franceses, ingleses e assim foi. Milhares de vítimas, centenas de caminhões rumo aos crematórios. Gente que ia embora sem se despedir, sabe-se lá pensando o quê na hora da morte horrível. Nenhum olhar de amor, de afeto, de compreensão, de acolhimento. Quem segurou aquela mão no adeus?

Ficamos em casa sem saber até quando, apenas sabendo que é necessário não se expor e nem tampouco expor o outro, nosso amigo e nosso irmão, nosso aluno e nossa mãe, nosso pai e nosso filho porque queremos salvá-los dessa morte que nos ronda enquanto dormimos, comemos ou vamos à farmácia, mercado.

Confesso aqui que tenho perdido o sono, que vou cobrir os meus, que vejo se estão respirando ou com falta de ar. Confesso que conjugo o verbo resistir, mas que tenho dado uns gritos fora de hora . Daí me lembrei do discurso do Obama no enterro do Mandela, na África do Sul: “Ubuntu”, ele diz no meio do discurso, a fim de homenagear aquele líder. E o estádio onde o corpo de Mandela estava sendo velado veio abaixo em aplausos…“Ubuntu” quer dizer “eu sou porque nós somos”. É uma filosofia que permeia todo o continente africano.

Diz-se que um antropólogo trabalhava com muitas crianças no coração da África do Sul, elas tinham pouco ou nada para comer. Ao final dos trabalhos, ele levou um grande cesto cheio de frutas, de doces e de brinquedos. Ao se despedir, disse: Podem correr para pegar… o que chegar primeiro, pode pegar o que conseguir levar…

Mas elas se deram as mãos e foram todas juntas, repartindo entre si, em igual proporção, sem nada disputar.

Isso me ocorreu agora: Ubuntu; como é que eu posso ser feliz se você nada tem?

Então, meu coração ainda tem esperanças: no mundo há gente que ainda oferece ao outro o direito de comer, dividindo o que tem.

Como é que eu posso ser feliz se o outro não tem remédios para se tratar e sobreviver? Sequer tem comida para hoje à noite?

Ubuntu, repito.

Ubuntu.

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