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Se as crianças nos julgassem…

Se as crianças nos julgassem, elas aprovariam o mundo que as espera? Porque os velhos e adultos de hoje gostam de sua falsa indignação quando afirmam “que no meu tempo não era assim”, sem lembrarem-se que foram eles que entregaram esse mundo aos que os sucederam. Todas as nossas expectativas políticas, as ideologias que seguimos, o hedonismo que impera, o sistema educacional que é alimentado pelo vestibular, as desigualdades, as guerras, são resultados que atingem nossos filhos.

Quem ainda se lembra daquela criança síria de 3 anos, cuja mãe e irmão morreram afogados no Mar Mediterrâneo e ela mesma, foi parar à beira de uma praia turca sem vida? Atualmente na Síria existe uma geração perdida devido aos estragos da guerra que já dura 10 anos. Perderam anos de estudos, adquiriram traumas emocionais e físicos, perderam entes queridos e passam fome.

Existem as crianças-soldados que ficam na fronteira entre Iêmen e Arábia Saudita, cuja inocência foi violada, pois, para “serem homens”, são transformadas em assassinos.  Também a criança da etnia rohingya que transita entre Mianmar e Bangladesh, cujos países negam a cidadania a seu povo que sofre genocídio ou aquela que produz um tênis no Vietnã sem direito à escola para um adolescente calçá-lo em outro país para estudar… Como elas julgariam os adultos que lhes deram esse mundo?

Meninas de 10 anos dadas à casamento em Malawi, que diante da miséria, os pais entregam-nas para outras famílias. Elas, muitas vezes, sofrem mutilação genital e sem estudar ou trabalhar devido ao extremo machismo dessa sociedade, ficam dependentes para sempre de um marido que age com violência. E, apesar da realidade nesta nação, com muito suor, passar por mudanças, ela persiste em outros países africanos e nações do Oriente Médio.  

Atualmente, órfãos da pandemia sofrem a dor da ausência, sem assistência social em sociedades cujo trabalho precarizaram seus pais, em nome de um discurso “liberal” na economia em que o Estado deve ser mínimo, tornando-se um “Estado-nada” para pobres, moradores da periferia, mulheres chefes de família, seguindo cartilhas econômicas que orgulham políticos que enchem os seus bolsos, guardam dinheiro em paraísos fiscais e pensam que pobre mesmo não tem que andar de avião.

Na sinceridade presente nos sentimentos de uma criança, seríamos perdoados?

Facilmente ficamos aterrorizados com o que vemos acontecer-lhes pelo mundo, entretanto, o que tanto existe da criança síria, nigeriana, afegã, no Brasil? Nos acostumamos com a criança negra que morre na favela entre tiros trocados pela polícia e traficantes, ou aquelas que dormem sobre a calefação do metrô subterrâneo que existe na calçada, ensinando-as ódio pela cor, hierarquizando gênero, brincando com armas em nossos ombros com clara evidência de educação pelo ressentimento, em uma necessidade de autoafirmação dos supostos valores do passado – sem ao menos, colocar uma lente em nossa história.

Nossas crianças ainda trabalham em carvoarias, estão presentes no campo brasileiro, exploradas em nome da “hombridade”, passando fome, como resultado da destruição de políticas sociais, lentidão de auxílio emergencial, procurando ossos junto com seus pais para ter o que comer, enquanto supostos “príncipes” da política gastam em viagens ao exterior, sem o menor constrangimento e orgulhoso por uma defesa em nome da economia em detrimento da saúde que se desfaz antes de completar a frase.

Este país, que se julga cristão, se esqueceu há muito tempo a lição de seu Messias sobre as crianças. Talvez, escolheram esquecer pela vergonha que isso lhe poderia causar, mas a culpa por destruir uma geração não se apagará. Se as crianças nos julgassem, quem dera seria possível nos perdoar.

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