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Quem de nós e a cloroquina

Foto: Freepik

O tempo passa lentamente neste ano dos infernos. Como um bordado infinito, com mil caracóis e borboletas, tecido sobre o qual se desenham também muitas mortes, centenas de milhares em todo o mundo. Até quando engoliremos o choro de orfandades, viuvez? Ninguém sabe a resposta. O certo é que todos os dias, a toda hora, uma alma voa sem querer.

Quem morre, afinal, por querer?

Ouvi hoje uma entrevistada que dizia ter muito medo de tomar cloroquina, de ser entubada e de nunca, nunca mais acordar.

Sei lá por que pensei que eu temia a mesma coisa, mas me consolava o coração o fato de acreditar que existe uma vida além desta vida e que somos imortais, vivemos esta e viveremos outras vidas, folha que um dia fomos, pedra que fomos, grilo que um dia saltou?

Confesso aqui ter andado triste como pardalzinho no beiral em tristes dias de chuva e frio. Choveu na minha alma aflita, é quase junho e o ano não começou, milhares passam fome, outros estão doentes, e aquela piada de mau gosto do presidente, ontem: “Quem é direita toma cloroquina, quem é de esquerda toma Tubaína. “ E riu como se relinchasse.

Tristes dias para o meu país, a quem um dia Vinícius de Moraes, no poema “Pátria Minha”, chamou de “Pátria minha, tão feinha”; meus olhos brasileiros quase choram de lembrar… Horrível imaginar que por aí galopam dias terríveis, difíceis que serão de cruzar, entremeados por gente agonizante e sem fôlego enquanto o presidente ri.

Falta trabalho, dinheiro, comida, agasalho. Falta vergonha na cara diante do sofrimento do outro. E o Lula, não gargalhante, mas tosco, derrapou na sintaxe e falou o que não devia. Pediu perdão. Não vale a pena perdoar, já que teve todas as chances de governar para todos.

Perceberam que pareço descrente? Ocorre que estou descrente. Acho que dois meses inteiros de isolamento social me puseram a pensar mais do que já penso e a doer mais do que doo. Tudo dói na Pátria mãe gentil tão distraída. Tudo é precário demais: ministros, cloroquina, a saúde, a vida nas favelas que alguns teimam em chamar “comunidade”. O Brasil sem empregos, com medo do novo Coronavírus, o Brasil que dorme nas calçadas, rente aos muros e come lixo. Até quando?

Eu me lembro dos discursos proféticos do ministro Mandetta: até agosto ou setembro.

E olho para o nada, o medo me abate: quem entre os que amamos pode estar morto, senão nós mesmos, quando Setembro florescer seus medos amarelos?

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