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Quando veremos políticas públicas sobre máscaras?

*Por Plínio Tenório

No último dia primeiro de maio o jornal O Tempo trouxe um levantamento preocupante, os desligamentos por morte subiram 21% em 2020 se comparado com a média dos anos anteriores, segundo os dados do Caged. Alguns dos maiores aumentos foram observados em ocupações essenciais. Por exemplo, motoristas de ônibus urbano morreram 48% a mais, enquanto no comércio, operadores de caixa, fiscais, embaladores, gerentes, entre outros cargos, tiveram um aumento no número óbitos entre 28% e 67%. O aumento médio visto nos dados referentes aos trabalhadores formais foi semelhante ao da população brasileira, que em um levantamento do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) teve no ano passado um excesso de mortes de 22%.

Não podemos afirmar que esse aumento foi exclusivamente por Covid-19, uma vez que o Caged não registra essa informação. Entretanto, frente ao cenário epidemiológico, ao registro geral de mortes e por se tratarem de ocupações que são constantemente expostas a outras pessoas, a correlação é uma possibilidade plausível.

Tirar o trabalhador das ruas nesta pandemia é uma tarefa impossível. Mesmo se houvessem lockdowns rígidos, como o visto em Araraquara, disseminados por todo o país, ainda teríamos os entregadores, motoristas de ambulância e do transporte urbano, faxineiros, varredores, enfermeiros, por exemplo, se expondo ao vírus. Como a realidade brasileira é outra, um retrato do cenário nacional feito pelo Ipea, analisando dados de 2020, mostrou que de cada 100 trabalhadores, 86 trabalharam presencialmente e dos que ficaram em casa, 3 em cada 4 tinham ensino superior. 

Com mais exposição, os profissionais de menor escolaridade foram os mais afetados, outro levantamento feito com dados do Caged, desta vez pelo Jornal Nacional, mostrou que dentre trabalhadores dos serviços essenciais, os  desligamentos por morte foram maiores entre os motoristas de ônibus urbano, seguido pelos cobradores, vigias e porteiros. 

Com tantos trabalhadores expostos nas ruas há mais de um ano de pandemia, surpreende que ainda não existam recomendações de equipamentos de proteção individual (EPIs) para esses profissionais, pelos menos para aqueles dos serviços essenciais. Por exemplo, é comum ver motoristas do transporte urbano, cobradores ou porteiros com máscaras de pano enquanto trabalham, acessórios com baixa capacidade de filtragem. Um estudo recente feito pelo Instituto de Física da USP mostrou que essas máscaras, feitas com algodão, tem eficiência de filtragem muito baixa, em alguns casos a taxa foi de 20%. Enquanto uma cirúrgica, analisada no mesmo estudo, teve 89% de eficiência. Só um adendo nesse ponto, é melhor usar máscaras de algodão do que não usar nada. 

Enquanto a vacina não chega, seria importante incentivar o uso de boas máscaras, com alta eficiência de filtragem, principalmente porque recentemente discussões em revistas científicas importantes, como a Nature e a The Lancet, indicam que a contaminação pelo SARS-COV-2 se dá majoritariamente pelo ar, através de partículas e aerossóis em suspensão. Já no caso dos trabalhadores de serviços essenciais, descritos no Plano São Paulo ou em decretos municipais, o ideal seria a doação de máscaras N95/PFF2. Esses EPIs têm 95% de eficiência de filtragem, garantindo mais segurança e diminuindo os riscos de infecção desses trabalhadores, que ficam expostos a muitas pessoas mesmo nas fases mais restritivas. Além disso, devido ao crescimento na demanda, já é possível encontrar recomendações de boas práticas para o reuso das N95, por exemplo, o grupo PFF2 Para Todos elaborou uma cartilha com os cuidados que devem ser tomados, um kit com 3 máscaras PFF2/N95, seguindo as recomendações da cartilha, duraria pelo menos 45 dias. O custo de um programa desses nem seria tão elevado, na internet é possível encontrar a unidade por R$ 4,00. Para determinar o custo final precisaria somente quantificar o número de trabalhadores de setores essenciais e definir o modelo de distribuição. 

Outra medida simples é desaconselhar, e em segundo momento proibir, o uso de máscaras com válvula. Esse tipo de máscara não filtra a expiração, eliminando todas as partículas no ambiente. Muitos países já desaconselham o uso deste EPI, outro exemplo é que aqui no Brasil a Anvisa proibiu o uso dessas máscaras no transporte aéreo.  

Medidas simples como essas, poderiam impactar na disseminação da Covid-19, proteger os trabalhadores e quem sabe até reduzir esses números macabros de mortes até que todos estejam vacinados.

Por Plínio Tenório. Bacharel em Ciência e Tecnologia pela Universidade Federal de São Paulo, Mestre e Doutorando em Engenharia Espacial pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.

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