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Quando chovem sílabas e palavras

Quando chovem sílabas, espreito da janela e recolho as que mais me interessam para formar palavras e envio-as , depois de prontas, recém saídas da memória, aos amigos, conhecidos e, muitas vezes, aos inimigos.

Escrevo isso e lembra-me Torquato Neto: “Muito cuidado, meu camarada, cada palavra guarda uma cilada.” Fecho a janela porque as palavras são pequenos doces, brigadeirinhos; come-se um , dois, três… quando se vê, encheu-se toda a barriga. Palavras também são pedacinhos de jiló, amargos demais, mas o amargor também é saboroso: come quem quer, só não vale cuspir depois.

Formo palavras, uma a uma e com elas frases e com elas parágrafos e com elas textos. Numa certa época, eu engolia palavras sem querer e acabei pesando 106kg. Palavras engordam, descobri , porque a tristeza sempre engorda. Bom mesmo é a alegria de viver. E sem engolir sapos, cobras e lagartixas.

Palavras-rãs, tão lindas de se ver o salto; palavras-sapo: quando a gente engole um sapo não há ninguém que faça tudo voltar a ser como antes… Isso são devaneios; a concordância é feia, mas é perfeita.

Quando chovem sílabas, um violino toca, uma abelha zune, um pardal pasta no gramado, comendo uma a uma as sementes dos pendões. Pardal tem olhinhos observadores…

Quando chovem sílabas,  uma lagartixa faz um barulhinho e despenca da parede, corre no chão. Ás vezes , perde a cauda, mas   renasce. Lagartixa bota ovinhos pequeninos e que ficam presos numa espécie de rede. Já fui colecionadora de ovos de lagartixas, imagine isso! Hoje, eu os olharia com amor demais porque elas comem insetos e, portanto, nos protegem.

Quando chovem sílabas, também chovem folhas de árvores, sementes voadoras, parecidas com bichinhos: puro fingimento da Natureza; as asinhas dão asas para que elas voem e caiam longe e nasçam outra vez arbustos ou árvores.

Quando chovem sílabas, um coro de vozes infantis canta  histórias de  ninar, desde Alice até Pinóquio e, depois, são depositadas – todas as histórias – ao pé da Mantiqueira, perto do Sítio das Águas Claras, onde nasceu Emília.

Quando a vida parece que está triste e de viés, lá vem uma palavra nova, uma história sem pé nem cabeça etc. E sobre o pântano das almas, uma vitória régia flutua, bela como o dia  e alegre como um bem-te-vi. Sílabas são folhas de cada árvore; por isso, ao vento de fim de julho, anunciam agosto e suas ventanias. Aí, nem te digo: sílabas formam palavras e se transformam em um grande dicionário.

Quem entendeu, entendeu. Quem não, fazer o quê?

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