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Procrastinação e as barreiras invisíveis

Artigo de Odete Guerra.

Odete Guerra

Diariamente, somos desafiados a realizar atividades diversas – seja estudar, fazer leituras obrigatórias, desenvolver trabalhos escolares, cumprir prazos, escrever relatórios, realizar trabalho em home office, realizar tarefas domésticas, levar o carro no mecânico, fazer pagamento de contas, inscrever-se num curso, concluir cursos, finalizar trabalhos designados pela chefia, entre muitos outros.

E, sem dúvidas, certamente você já deve ter ouvido falar ou convivido com pessoas que costumam adiar trabalhos importantes, sempre deixando as mais distintas tarefas para “outro dia”; inclusive, interrompendo o que deveria ser concluído dentro de um prazo determinado. Não é incomum que muitas dessas pessoas tenham um longo prazo para desenvolver um determinado trabalho, sejam dias ou semanas, e, faltando dois dias ou até menos para o prazo fatal, desesperam-se por não haverem concluído, pois, inconscientemente, subestimaram o tamanho das tarefas e todo o tempo que poderiam ter dado seguimento para um desenvolvimento tranquilo.

Isso é o que se chama “procrastinação”.

De origem latina, procrastinar quer dizer, literalmente, “a frente de amanhã”, ou seja, deixar para amanhã, para a última hora, o que pode e deve ser feito logo.

Normalmente, os procrastinadores são pessoas que têm dificuldades em iniciar uma tarefa, possuem hábito de adiar, sistematicamente e por muitas vezes, a execução das atividades.

É muito comum observarmos esses comportamentos de “deixar para depois” em atitudes como: iniciar uma dieta, mudar hábitos alimentares, iniciar a prática de atividades físicas – a famosa mania de “deixar tudo para depois, a espera de um milagre”.

Tal característica afeta crianças, adolescentes, adultos, profissionais de diferentes áreas, sejam bem sucedidos ou não, e nos mais variados contextos e circunstâncias, seja na escola, no escritório, na empresa, no lar. A bem da verdade, a maioria das pessoas tem pelo menos um pouco de experiência nesse quesito.

Porém, é importante sabermos que a procrastinação surge inocentemente; a princípio, de alguma atividade que o indivíduo tem que fazer, mas não quer, pois a considera tediosa, difícil ou com longo prazo para finalização que logo desanima.

Psicologicamente, dizemos que a pessoa tem insegurança e medo frente às situações exigentes e desafiadoras que envolvem risco de fracasso – de não dar conta – e essa avaliação de si mesmo gera uma ansiedade, pois, em grande parte, tem-se uma crítica muito severa sobre o próprio desempenho.

De tal modo, a procrastinação é usada como estratégia (defesa emocional), que dá um certo conforto temporário e um alívio a curto prazo, sejam física e/ou emocionalmente desagradáveis as tarefas percebidas como enfadonhas, desinteressantes, estressantes, repetitivas, ou, até mesmo, desafiantes. Assim, o indivíduo com essa característica começa a empurrar ou a se convencer de que mais tarde, ou num outro momento, terá melhores condições mentais ou psicológicas para iniciar a tarefa.

Há, ainda, os procrastinadores perfeccionistas – que levam muito tempo cuidando dos pequenos detalhes e os trabalhos acabam sempre sendo terminados no corre-corre, por adiar as tarefas pela sua incapacidade de tomar decisões rápidas, priorizar – e são mais propensos a desistirem e a não completarem as tarefas. Em tais indivíduos, acentua-se o medo do julgamento do outro, vivenciando com muita ansiedade o desafio, pois era o que queriam evitar.

Outro perfil bastante comum de procrastinador é aquele que assume muitas atividades e acaba ficando sem saber por onde começar.
Há os que preferem trabalhar sob pressão e as suas decisões de procrastinar são “propositadas”. São persistentes e capazes de completar uma tarefa até ao último momento; porém, há o desespero quando o tempo vai se esgotando, caindo em um ciclo vicioso, em que tudo é feito de última hora.

Todas as atividades são guiadas por sentimentos subjetivos sobre as tarefas, e, se tais sentimentos forem negativos, há procrastinação acompanhada pelos comportamentos de desculpa, sonolência, preguiça que toma conta, culpa por ver que o tempo está passando, medo de não dar conta, falta de confiança, ansiedade.

Se o comportamento de deixar um trabalho importante para a última hora ou atividades cotidianas for um padrão de comportamento regular e contínuo, tais pessoas experimentam picos de estresse, de insegurança e de sentimentos de baixa autoestima; colocando seu equilíbrio emocional em perigo, causando problemas ao longo do tempo para a vida, além de comprometer a carreira, perda de produtividade, relacionamentos e até mesmo a saúde.

Importante ressaltar que nos casos de transtorno psiquiátrico, adiar tarefas pode ser um sinal de depressão, de transtorno de ansiedade ou de TDAH (transtorno do déficit de atenção e hiperatividade). Portanto, um diagnóstico com um profissional é de suma importância.

Por isso, pare um momento antes de achar que tem controle sobre a sua procrastinação e se pergunte o que está por trás dela.

É importante identificar e cuidar dos aspectos psicológicos, conscientes e inconscientes, que levam a este modo de funcionar, de maneira que a ansiedade não acabe assumindo o controle.

E saibamos, nossas barreiras são as invisíveis aos olhos.

Odete Alves Guerra é psicóloga clínica há mais de 30 anos, mestrado pela universidade de Taubaté, Formação em Psicanálise. Lecionou nas principais faculdades da região. Atualmente trabalha na empresa Sest Senat

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