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Os donos do meu coração

Há coisas das quais gosto até o espanto: um livro novo, por exemplo.
Abro as páginas, cheiro a tinta, acaricio as folhas. Quando era pequena, adorava pensar coisas loucas: por que folha de árvore e folha de livro? Mais tarde, aprendi as chamadas catacreses, mas nunca deixei de pensar sobre a lindeza ( eu ia escrever “beleza”, mas quem disse que é a palavra exata?) das palavras.

Um livro novo é um universo inexplorado, sobretudo quando alguém diz: “Já leu o livro tal? Já viu o livro Y?” Fico absolutamente instigada. Cada livro meu tem minha marca: leio a primeira vez, apenas olhos e cérebro; na segunda, leio com lápis, caneta marca texto.
Um livro não pode ser intocado; aberto, há que trazer uma mensagem: “estive aqui”. Estive aqui, naquele livro, um apontamento, uma data, um ressalto, um traço. Adoro comprar livros em sebo por isso: encontrar pistas do que é humano, passagem de ônibus, pequenos folders, lista de compras, mensagens de qualquer religião, qualquer coisa que signifique “estive aqui”.

Jamais me esquecerei da experiência de quando era muito pequena e ganhei a coleção de mestre Monteiro Lobato. Sabendo que eu aprendera a ler sozinha, meu pai me falara coisas como “ser livre”. Fui entender muitos anos depois, quando minha estante de livros já estava cheia e eu podia escolher entre poemas e contos, romances. O suave toque da mãe dele nos meus ombros e as palavras assustadoras: “Fique em silêncio com o livro aberto à sua frente; a cada vez que você mudar uma página, não se esqueça, milhões de pessoas falam, sussurram, gritam, brigam, amam aí dentro. Em um livro, mora toda a humanidade, seus erros e seus acertos, suas expectativas…”

Por isso é que procuro essa humanidade nas páginas escritas. Porque sei que lá as personagens somos nós, os humanos e sei também que cada palavra “guarda uma cilada” como quis Torquato Neto, compositor que um dia não aguentou mais viver.

Hoje, sei, misturo coisas alegres e tristes.

Há dias o céu está nublado; Lobato fez aniversário no dia 18 de abril, ele, o que um dia quis vender livros em postos de gasolina e farmácias. Emília me olha da estante, fofoqueira de uma figa! Emília é dona do meu coração há muitos e tantos anos. Desde o dia em que comecei a ler, desde sempre.
E é isso.

Esther Rosado é psicanalista e professora de Redação e Literatura. Ocupa a cadeira 17, professora Philomena Pinheiro, da AJLetras.

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