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Os dias perdidos, Jó e o sentimento do mundo

Hoje, eu sei, é dia perdido. De repente, na minha cabeça surge a frase: só podemos encontrar na vida o que verdadeiramente perdemos nela… Encontrei, perdi? Talvez tenha encontrado há tempos, talvez nunca tenha encontrado, eu não sei. O certo é que Mozart toca para mim sua Sinfonia 40 e eu carinhosamente a coloco na moldura, como uma fotografia, juntamente com as lembranças mais felizes de que disponho, o que melhor vivi.

Prego a fotografia na parede, como se a vida pudesse estar assim, num varal, ao sol. Na parede do mundo, onde dependuro a minha vida junto com a Sinfonia 40, há transparências e heras. E muito sol. Tanto, que me fere os olhos. E olho a paisagem simples onde havia, se não me engano, jabuticabeiras e seus lisos caules, abelhas inquietas. Imobilizadas no sonho, lá estão minhas mais fundas lembranças de menina, a que um dia fui e sempre serei. E esta crônica é isso: um depósito de saudades, Cafarnaum, um quarto do qual não se abre a porta, uma porta que protege esse quarto do resto do mundo e que é de ninguém mais, só meu.

Aprendi com meu pai: “com Mozart, o mundo são violinos a tocar… “ Como eu achava estranha essa velha frase e como me ajudou mais tarde a compreender metáforas, a achar que sons de música erudita são parentes do barulho que as folhas fazem quando tangidas pelo vento folhas.

Esta pandemia me ensinou muito, sobretudo a confiar nas pessoas; mas o que me trouxe de volta, especialmente, foi conviver com os meus e a não me perder no meio do trabalho, esquecida de beijos e abraços. Me fez outra vez pensar certas situações, perdida na dureza da burrice e na ferocidade que as pessoas trazem da ancestralidade .

2020 é ano perdido? Certamente que não; todos aprendemos muito. Tal como Jós bíblicos, ainda estamos sentados sobre a cinza ardente do Pantanal e nos coçamos com os cacos de telhas do teto das casas de Beirute. A cidade libanesa quase desapareceu em uma explosão e muitos ali crescerão para contarem que dia horrível foi aquele: você também chorou?

Que mundo é esse em que o governo envenena um opositor e crianças morrem de sede e fome? Em meio à pandemia, penso na solidão dos velhos sem filhos ou apartados de todos…

Hoje, eu sei, é dia perdido. Apanho ao acaso um livro, e coloco os óculos para ler a capa: a obra completa de Drummond. E outra vez, mais uma e mais outra, esqueço-me da pandemia e me ponho a ler: “ Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”…

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