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Olha o que encontrei: amor de mãe

*Esther Rosado

Fui às gavetas do armário para desenterrar saudades.

Na verdade, buscava eu um xale para me agasalhar nesses inícios de Outono; nada que me interessasse na primeira, mas, na segunda, meu olho viu o já antigo xale feito em tricô, marrom bem claro, café-com-leite , feito ponto a ponto por Mirinha, minha mãe nesta encarnação sobre o planeta.

Toquei o tecido de linha, ainda me lembro dela sentada junto à janela para melhor ver; ainda me lembro das minhas confusões para saber nome das coisas desta vida: é manta ou xale, como se chama isso?

Ela me olhou e disse: “Enrole_se nele quando sentir saudades de mim.”
É acrescentou: Chama-se amor de mãe.

Então, quando me sinto sozinha, quando não consigo resolver os problemas, quando o friozinho começa , eu o procuro e nomeio: “ vou usar hoje o meu “ amor de mãe”. E me enrolo nele e sinto o gosto do abraço bom de minha mãe, morno, grande, sem nenhuma economia.

(Quando meus irmãos lerem até aqui, já começarão a chorar, eu sei , e nos esconderemos num único abraço, nós três).

Minha mãe tecia com imensa alegria; qualquer coisa que fosse linha, qualquer coisa que fosse música, qualquer coisa que fosse afeto.

Vesti hoje o xale, tirei saudades da gaveta, toquei ao violão a música preferida dela.

Sinto muita saudades suas, mãe, sobretudo seu seu olhar verde, de sua alegria misturada a uma tristezinha e seus olhos de um tom que nunca mais reconheci em ninguém, em nenhum ser que me rodeie.

“Quando sentir saudades de mim”, não há quando, mãe, há o sempre, o cotidiano de ver voce tocando, cantando ou até respirando com a ajuda de um catalizador de oxigênio.

Nem isso tirou lhe a vontade de viver e foi até o fim com aquele barulhinho e aquela máquina, certa de que haveria um milagre depois de células tronco.

Hoje, estou enrolada no seu xale, mãe.

Hoje, eu sei que foi um privilegio ter você por perto na travessia dos meus dias humanos. Incansavelmente, você me ensinou.

Tiro o xale da gaveta, eu também teci para minha filha Ana. Não um xale, mas uma colcha: nunca te esqueças de mim, Ana, lembra sempre de mim.

Tiro as saudades fundas da rasa gaveta; se objetos tivessem cheiros, eu certamente sentiria seu leve perfume e sentiria sua canhota mão a desenhar relevos e desejar as melhores coisas para mim. Pensa que eu não vi? Quando você teceu este xale, via seus lábios fazendo desejos para mim.

Você era dada a isso, desejar coisas boas para nós três.

Esta crônica vai adiantada, não vou esperar o dia das mães.

Mas ressoam dentro de mim, enquanto me enrolo nessa sua tecitura mágica, as suas palavras.

Fui buscar um xale na gaveta e olha lá o que busquei pra mim, saudades.

Fui buscar saudades na gaveta e olha o que encontrei: amor de mãe, mãe.

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