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O vereador das ruas

*Texto de Gustavo Montoia

A realidade do brasileiro é esta: acordamos 5 horas da manhã para enfrentar um longo dia de trabalho. A distância da casa em relação ao trabalho chega a ser grande, pois, muitos gastam 1 hora dentro do transporte público, geralmente lotado. Em nosso bairro, onde passamos horas de descanso, não possuímos praça pública agradável, com iluminação e alguns equipamentos de lazer.

Depois das 22 horas não nos sentimos seguros nas ruas e, no dia seguinte, acordamos muito cedo para conseguir uma vaga no postinho – a consulta chega um mês depois. Existe a ausência do policiamento preventivo, uma ideia de segurança pública quase ausente no Brasil. Diante da pandemia, o sentimento de coletividade é inexistente – em uma clara negligência de educação social e covardia de alguns políticos.

Nessa realidade que é muito mais complexa, temos a política no âmbito municipal. Desde que saímos do regime militar, os municípios ganharam autonomia administrativa e algumas responsabilidades que personalizaram mais a vida local. Os 5.570 municípios do Brasil possuem direito a auto-organização, política urbana local, arrecadação de imposto como o da propriedade territorial e urbana (IPTU), entre outros serviços.

Essa vida política local é bem expressiva no âmbito da cidade (a zona urbana do município), onde, os cargos de prefeito e de vereadores são a manifestação da democracia local. Esta realidade é uma conquista e permite aos cidadãos uma participação política mais próxima de sua realidade.

Contudo, à medida que as conquistas democráticas foram se avançando no Brasil, a decepção com a atuação dos representantes políticos também aumentou – corrupção e interesses de grupo, deixando de lado as reais necessidades do povo, estão entre os principais motivos.

Esse é um dos desafios do longo processo de recuperação da confiança política partidária no Brasil. E pode começar com os vereadores! Esse cargo, muitas vezes disputado por pessoas que não possuem a menor ideia de serviço público, regado à interesses pessoais, deve ser responsável para levar às portas das casas dos munícipes a vida política local.

Precisamos de um vereador das ruas! Ele mesmo, o que foi eleito, e não seus assessores, visitando os bairros, batendo nas portas das casas, presentes em eventos nos bairros com a intenção de conhecer e se importar com a realidade local. Se vai sofrer rejeição ou cobrança, deve estar preparado para isso, uma vez que aceitou ser um representante político.

A conquista da confiança em sua função e na democracia representativa local está em sua prestação de contas mais perto das pessoas. O vereador deve ser aquele que vai insistir para a participação da população em atividades de interesse público.

O vereador, para isso, deve ter uma ligação com a comunidade local. Esta ligação é o ponto de partida para a sua função na cidade, pela cidade. É importante esta compreensão, pois o cargo de vereador não é de atendente de bairro, tendo a região da cidade como um curral eleitoral – o que é muito comum acontecer. Ele precisa enxergar a necessidade da cidade como sua função, e não apenas de um bairro em questão.

Pode parecer uma utopia, mas eu prefiro ainda exigir a ficar resignado. Quando alguém desejar se candidatar, que sinta o peso do voto de pessoas que desejam muito mais. Pois, o que acontece é que os partidos procuram muitas pessoas para serem candidatas ao cargo apenas para serem números de votos para colocar o partido no poder e não pessoas que desejam fazer a diferença!

Gustavo Montoia é geógrafo e doutor em Planejamento Urbano e Regional pela UNIVAP. É docente dos Colégios Univap e da EE Francisco Feliciano F. da Silva (Verdinho) e pesquisador-colaborador do Laboratório de Estudos das Cidades da Universidade do Vale do Paraíba.

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