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O que você faria com 1.500.000 reais?

Rogério Nakata

Segunda-feira passada se encerrou a edição de número 20 “da casa mais vigiada do Brasil”, o Big Brother Brasil 20. Muitos não se recordam, mas o primeiro prêmio pago em 2002 para o dançarino Kleber Bambam foi em tese 3 vezes inferior ao prêmio atual, ou seja, R$500 mil, isso sem levar o efeito da inflação ao longo do tempo. Mesmo assim ganhar 1 milhão e meio de reais mexe com o imaginário de muitas pessoas principalmente pelo sonho de ser um milionário que, neste caso, se torna uma realidade após 90 dias de confinamento e com o depósito em conta corrente do valor tão cobiçado.

Levando para o ambiente das finanças comportamentais sempre que as pessoas são perguntadas nas filas das lotéricas em jogos acumulados da megasena o que fariam com um prêmio tão generoso muitas respondem que comprariam uma mansão, carros de luxos, uma casa na praia, uma chácara, uma fazenda mas também que não poderiam deixar de ajudar toda a família e amigos, mas será que, tirando o lado social e da gratidão, essa é a melhor forma de “investir o dinheiro” ainda mais quando o resultado não é de milhões mas de 1 milhão e meio de reais?

Toda calma é pouca nessa hora pois, por mais que pareça muito dinheiro e independente de seu montante, ele é finito e precisa ser muito bem gerido pelo seu proprietário.  Lembro de uma passagem bem interessante de um livro que se tornou best seller mundial chamado Pai Rico Pai Pobre, de autoria de Robert Kiyosaki, onde ele demonstra que diferentemente do que que conhecemos na Contabilidade tradicional, bens como carros de luxo e imóveis suntuosos podem ser, na realidade e na sua vida financeira, grandes passivos financeiros. Segundo seu conceito, Ativo é aquilo que coloca dinheiro em seu bolso e Passivo é aquilo que retira dinheiro dele.

Mas o que significa retirar dinheiro do bolso já que estou, em tese, aumentando meu patrimônio pessoal e familiar? Seriam gastos que, na maioria das situações, principalmente de euforia não são levadas em consideração e colocadas devidamente na ponta do lápis no momento de sua aquisição e que podem acarretar maiores despesas fixas em seu orçamento do que aquelas que já possuía antes da premiação.  Não é à toa que muitas pessoas que ganharam na loteria, em sua maioria, hoje são mais pobres do que da época do recebimento da bela bolada. Por exemplo, no caso de um imóvel de alto padrão as despesas seriam um elevado condomínio mensal, IPTU generoso, a manutenção significativa que um imóvel deste porte demanda, móveis novos, empregados, jardineiro, piscineiro, zeladoria etc., etc. No caso de um automóvel ou de automóveis tem-se de cada um deles os impostos como o IPVA, o seguro obrigatório – DPVAT, o seguro anual contra roubo, incêndio, danos materiais e à terceiros, além dos custos referentes a sua manutenção que não poderá ser mais no seu antigo mecânico de confiança mas, agora naquela renomada e especializada concessionária da tal marca importada escolhida. Somados a tudo isso, a depreciação e o custo de oportunidade estes podem representar despesas totais na ordem de quase 50% do valor do bem por ano. Para as despesas relacionadas a uma fazenda estão impostos como o de Propriedade Territorial (ITR), a contratação de caseiros e funcionários, máquinas e equipamentos, mas também todos os custos envolvidos para manutenção do bem e das atividades produtivas que supostamente venham a ser exercidas nesta propriedade.

Já a casa da praia os custos são semelhantes à de um imóvel na cidade, porém em razão da proximidade com o mar e consequentemente o efeito da maresia a mesma requer maiores cuidados com a questão da manutenção, mas também com zeladoria.

Tudo pode parecer muito bacana e prazeroso no início, porém quanto tudo isso poderá representar dentro do seu orçamento mensal, 20%, 30%, 40% de gasto TODO mês? De todas estas aquisições, o que coloca e o que retira dinheiro de seu bolso? Qual a diferença entre poupar e investir? Uma delas é que investir é fazer os juros compostos ou juros sobre juros trabalharem a seu favor e no caso de empreendimentos que estes possam gerar algum tipo de receita recorrente.

Voltando ao prêmio de 1 milhão e meio podemos perceber que se esta quantidade de dinheiro determinada, se não bem administrada e gasta somente com a compra de ativos que não geram receita, podem dilapidar o patrimônio financeiro conquistado e ao invés de gerar uma receita mensal ou pagamento de juros e dividendos acarretará num passivo e em despesas fixas mensais. No caso de investir os recursos recebidos também é necessário alguns cuidados e porque não buscar um apoio profissional que possa lhe auxiliar, não somente a aplicar seu dinheiro de forma adequada, mas que lhe proporcione maior clareza em relação as suas expectativas atuais e futuras, seu contexto e momento de vida.

Se falarmos em investir na Caderneta de Poupança com as taxas de juros básicas atuais de 3,75% ao ano (Poupança rende 70% desta taxa = 2,63% ao ano) o rendimento seria de R$39.450 ao ano ou R$3.290 por mês, porém quando falamos de Rendimento Real que é a diferença entre o rendimento de sua aplicação e a inflação medida no mesmo período, temos que o rendimento real desta mesma Poupança, em 12 meses, foi de apenas 0,57%, alterando o valor para apenas R$8.550 por ano ou R$712,50 mensais sobre os mesmos 1 milhão e 500 mil investidos. Já na aquisição de títulos públicos, como o mais conservador deles, o Tesouro Selic, o retorno proporcionado em 12 meses foi de 5,34%, ou seja, que seriam R$80.100 ao ano ou R$6.675 mensais. Levando a mesma lógica acima, o rendimento real descontado de impostos e inflação seria de 1,2% ao ano que corresponderiam a R$18.000 anuais ou R$1.500 ao mês para o mesmo valor de premiação. 

Portanto é prudente não abusar da sorte pois, dinheiro não leva desaforo e é sempre importante verificar se o seu estilo de vida está adequado a sua forma de consumir e se ao invés de colher os frutos da árvore você não está cortando aos poucos seus galhos ou o seu tronco impossibilitando-o definitivamente de fazer novas colheitas.

Rogério Nakata é Planejador Financeiro Certificado pelo Instituto Planejar – Associação Brasileira de Planejadores Financeiros, Embaixador CFP® para o Vale do Paraíba, Agente Autônomo de Investimentos pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários) e palestrante sobre os temas Educação Financeira e Planejamento Financeiro de grandes organizações (www.economiacomportamental.com.br)

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