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O presidente que perdeu a oportunidade

Quando estourou a pandemia, diante de um Sistema Único de Saúde (SUS) federalizado, existia um cordão de segurança no país. Com uma campanha de conscientização, administração dos internados e distribuição de equipamentos e medicamentos, a atuação diante da pandemia seria melhor do que em qualquer outra nação. Afinal de contas, o Brasil sempre foi exemplo em vacinação, erradicação de doença e tratamento de câncer e HIV.

A escolha foi ignorar. Primeiro, o paternalismo que não quer “preocupar a família” quando aparece o problema. Então, minimizar foi o caminho: “é só uma gripezinha”. Quando seus soldadinhos de chumbo não resolveram bater continência, como o Ministro da Saúde, a situação ficou mais banalizada: atitudes contra o uso de máscaras, rejeição a qualquer distanciamento social, estímulo às aglomerações e uma “preocupação” com a economia – quando o mundo inteiro compreendia que a economia seria salva com a saúde. O Ministro, então, demitido.  

Depois, notícias alastraram sobre e-mails ignorados de compras de vacinas, impedindo assim, que pessoas fossem imunizadas já no mês de janeiro de 2021. Zombaria com o laboratório chinês e uma falsa utilização de linguagem de mercado fora usada, pois “os fabricantes é que deveriam procurar os compradores”, em um governo que deveria buscar soluções.

Em meio a isso, resistência com o auxílio emergencial, que ocorreu por pressão do Congresso. Uma incompetência planejada do Executivo que levou o país a quase um proto-parlamentarismo, enquanto o Ministro da Economia tropeçava com suas promessas de aumento do PIB, ao lado de produtos, insumos agrícolas e combustíveis a preço internacional. Um liberalismo selvagem no qual o povo é jogado para os leões do mercado financeiro, em sacrifício a um deus com letra minúscula. Não sobraram piadas com mortos, incentivo a manifestações antidemocráticas, excitando moralistas que discursam uma santidade com as calças baixas e as planilhas na mão.

Ele perdeu a oportunidade. Pensei, pensamos (alguns bem silenciosamente), que seu grande “cala boca” para a oposição seria uma vitória a favor da saúde, na luta pelas vidas, no esforço aos mais pobres, na imolação de um mercado para compreender que produtividade existe com vidas saudáveis. Fico imaginando sobre quem conseguiria se colocar como uma alternativa para um presidente que lutou pelo resguardo, pela corrida das vacinas, sem tanto postergar! Imagina em uma transmissão se ele falasse que, como um cristão, as vidas estavam em primeiro lugar? De escalabros que saem de seus lábios, nada seria maior que suas ações.

Todavia, caminhamos para o desrespeito às Instituições, o desejo da cédula corrupta que levaram defuntos a votar, corroendo a democracia por dentro, com indícios dados desde a época em que dormia no plenário e escrevia projetos de Lei inoperantes tal como é hoje, sendo que, nesse momento, inoperância é o projeto. Com desemprego e alta dos preços, caminhamos para 600 mil mortos com um vírus letal que ocupa a cadeira no Planalto.

E, em mais um talvez, ao povo o discurso de meritocracia nos púlpitos com sacerdotes apresentando candidatos, em um país corroído por florestas em chamas, economia depressiva, em um autoritarismo gotejante, com a permanência de um grupo cego que continuamente o vê como um Messias (às avessas). E como os adoradores de Baal, segundo relato bíblico, continuam a clamar para um deus surdo, por nunca existir.

Gustavo Montoia é geógrafo e doutor em Planejamento Urbano e Regional pela UNIVAP. É docente dos Colégios Univap e da EE Francisco Feliciano F. da Silva (Verdinho) e pesquisador-colaborador do Laboratório de Estudos das Cidades da Universidade do Vale do Paraíba.

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