Acompanhe aqui os números da COVID-19 em Jacareí

O Outono e os labirintos sem chuva – Esther Rosado

Sim, é quase abril e nada mudou; mas entre as nuvens do céu, o Outono já pode ser vislumbrado em violetas, as chuvas já no fim, tudo parece indicar um céu de Van Gogh.
Quando chove, no entanto, eu sei reconhecer algumas coisas que, a duras penas, tenho aprendido: música da água, mansa, suave e delicada; estrondos de tempestades, linguagem que talvez ninguém compreenda sem se deixar molhar inteiramente.

Quando chove assim, eu ouço o Messiah, de Haendel e me lembro de promessas que nunca cumpri, dos presentes que não dei, da música que, por culpa e descuido meus, alguém jamais ouvirá. Talvez um dia eu cumpra a promessa e coloque um pacote no correio, sem destinatário, nenhum nome, e o pacote dê a volta ao mundo e eu o surpreenda, séculos depois, sobre a minha mesa, presente para mim , marcado com mil carimbos, caminhos, descaminhos.

Minha alma se despede da chuva de que tanto gosto, mas que também destrói e mata; contraditoriamente, faz nascer brotos e raízes e, lá em setembro, nascerão também folhas novas, beija-flores pequeninos, frutos tímidos de grandes árvores.

Ouve? Enquanto escrevo mais esta história sem pé nem cabeça, a chuva grita lá fora, bate nos vidros da janela e quer, desesperadamente, entrar. Não leio mais manchetes de jornais, leio notícias. E todas me dão conta que , um dia, aprenderei a voar.

Nascerão orquídeas, explodirão jasmins, soluçarão damas da noite no jardim e esta adaga de afiada lâmina me conta que já não existe mais nada a ser cortado, que tudo experimentei. Só ouço a chuva e a música do mundo. E há gritos demais e bombardeios afinados com a música do mundo.
E por ser quase abril, já não tenho medo de quase nada.
Meus dedos , cegos, cegos, passeiam pelas lombadas dos livros que leio e releio. E ao som da música da chuva, declamo Manoel de Barros para o vento. O mundo foi sempre assim? Sei que não. Mas é quase abril em mim. E em algum lugar do mundo, sem que se espere, de repente explodirá a primavera no futuro. E a chuva passa, e as páginas deste livro são viradas e eu aprenderei de novo a senha que me livre, finalmente, dos labirintos que um dia inventei.

Deixe uma resposta

Top
WhatsApp chat
%d blogueiros gostam disto: