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O MEDO DE DIRIGIR

*Por Odete Guerra

A psicóloga Odete Guerra

Para algumas pessoas, assumir o volante é uma situação percebida como ameaçadora, cuja sensação de risco leva a emoções e a pensamentos de grande intensidade.

A propósito, quem não conhece ou já não ouviu falar de pessoas que sentem medo de dirigir, ou, inclusive, que possuem veículo próprio e até mesmo carteira de habilitação, porém, evitam a todo custo dirigir; deixando o carro apenas na garagem (conhecida como Síndrome do Carro na Garagem)?

A amaxofobia, como é chamado este medo, afeta, psicologicamente, a pessoa, sendo considerada um transtorno de ansiedade ou fobia específica, que pode afetar até mesmo o cotidiano do indivíduo e as pessoas que com ele convivem e se relacionam.

Precipuamente, importante destacar que tal problemática pode atingir pessoas de ambos os sexos – muito embora se saiba que, preconceituosamente, seja propagado que tal medo se restrinja às mulheres. Além disso, afeta todas as camadas sociais, econômicas e culturais, sem discriminação. E, nem sempre é resultado de uma experiência ruim ou traumática.

É fato que quando pensamos em situações ameaçadoras sentimos medo. Por conseguinte, o medo nada mais é do que um estado psíquico em que o corpo se prepara para o famoso “luta ou fuga”; e com a percepção de estar diante do imprevisível, pensamentos relacionados sobre acidentes e perda de controle costumam se apresentar nesses casos ora mencionados. Como exemplo, é muito comum que indivíduos que apresentem amaxofobia pensem “e se eu bater o carro”, “e se eu deixar o carro morrer”, “e se eu atropelar alguém”. Ademais, começam a imaginar como terão que dar conta de prestar atenção no acelerador, nos freios, na trocar de marcha, de olhar o retrovisor, na ré, nas setas, nos pedestres, nos ciclistas, nos outros automóveis. Afinal, muitos são os detalhes!

É verdade que o estado afetivo e mental suscitado pela consciência de um perigo ou risco real, tais como, dirigir à noite em uma estrada pouco movimentada ou de sofrer um acidente, é um medo considerado normal ou positivo, uma vez que facilmente se desfaz após o perigo passar – sendo, portanto, uma emoção indispensável que nos prepara para administrar situações de ameaça.

Contudo, quando este medo se manifesta de forma exacerbada e paralisante, causando sentimento de frustração, de sofrimento e de incapacidade, colocando o indivíduo a ponto de evitar a situação e até mesmo apresentando sintomas físicos como tremores, sudorese, aumento da frequência cardíaca, enjoos e outros, tem-se um típico caso de um transtorno de ansiedade denominado de fobia específica.

Além das manifestações físicas e emocionais, as pessoas que sofrem com esse transtorno ainda precisam lidar com a falsa crença de que não conseguir dirigir um veículo está diretamente ligada com a capacidade de dirigirem suas próprias vidas, quando, na verdade, o que vemos na prática clínica é justamente ao contrário: são pessoas que conduzem adequadamente suas vidas. Em outras palavras, não existe nenhuma ligação entre a dificuldade de mobilidade e dependência de outras pessoas para locomoção com a limitação da vida pessoal.

Quanto às características de personalidade, estes são indivíduos sérios, comprometidos, exigentes consigo mesmos e perfeccionistas. A bem da verdade, são pessoas detalhistas e meticulosas; muitas vezes não suportam errar e têm dificuldades para lidar com sua exigência que se ressentem com as críticas e exigem demais de si e dos outros; observam as falhas do outro e sofrem antecipadamente pelo erro que podem cometer.

E, então, o que elas fazem?

Evitam a situação, não tentam e empregam julgamentos sobre si mesmas, considerando fraqueza ou até incompetência.

Dessa forma, para a resposta entre “luta ou fuga”, a escolha costuma ser sair correndo, de modo a fugir e evitar a situação, bem como o uso de desculpas para não ter que dirigir.

Segundo o educador de trânsito, Wellington Gomes, especialista em direção, todos podemos aprender a dirigir, uma vez que ninguém nasce sendo um bom motorista, todas as pessoas têm medos e inseguranças.

De acordo com Gomes, o trabalho técnico de aprendizagem aliado ao acompanhamento terapêutico auxilia no processo de compreensão e clareza da insegurança, pois acredita que muitas vezes não é “o medo de dirigir”, mas medo de errar, de ser criticado, de perder o controle do veículo, de não saber usar o freio, de não conseguir passar as marchas no momento certo, de sofrer um acidente, ou de se machucar. Acrescenta que o desenvolvimento da habilidade de aprendizagem e controle da embreagem de forma a não deixar o carro morrer, assim como a compreensão do fato de que o motorista que está atrás precisa, por lei, estar distante a ponto de conseguir desviar do seu carro, corrobora com a reação emocional a ser vivenciada pelo motorista em situações concretas.

Estas considerações do especialista em direção vão ao encontro das características de personalidade mencionadas e da necessidade de se trabalhar no processo terapêutico as crenças limitantes e as associações. Neste giro, podemos citar como exemplo um indivíduo que tem medo do carro morrer bem no momento em que o semáforo se abrir, em que essa apreensão não está ligada ao veículo em si, mas ao receio do olhar de julgamento que os outros vão fazer dele.

Por esse motivo, falas como “não precisa ter medo”, “mantenha a calma”, “dirigir é simples” não surtem efeito algum, já que o medo que se tem vai além da razão. É muito mais profundo, pois vem acompanhado de um quadro de ansiedade e de crenças limitantes, e acaba por impactar na própria autoestima.

Neste sentido, o medo de dirigir, é um transtorno psicológico e não uma incapacidade de aprender.

Entretanto, a boa notícia é que existe sim tratamento! E deveras importante tratar as questões emocionais, pela identificação de qual a causa desse medo e da angústia que o acompanha, e quais pensamentos são importantes e valem ser levados em consideração.

Ademais, ao tratamento terapêutico deve se aliar ao acompanhamento do trabalho de um técnico em direção para o desenvolvimento das habilidades de comando do carro e seus recursos e ambiente.

Conclui-se, logo, que assumir que existe real necessidade de ajuda é o primeiro passo para superar o medo e a ansiedade, pois somente a força de vontade e a consciência de que existe um transtorno podem dar conta de superar uma limitação emocional.

O processo terapêutico de saber sobre nós mesmos, de discriminar sensações e sentimentos, nomeando-os adequadamente, permite maior flexibilidade diante da vida, no sentido de desfazer nós e angústias que nos paralisam e nos aprisionam, de modo a reelaborar as experiências que consideramos ser ameaças.  

Vale lembrar que a mente humana guia o corpo da mesma maneira que o guidão da direção orienta o automóvel.

One thought on “O MEDO DE DIRIGIR

  1. Gratificante participar contribuindo com experiências no desenvolvimento de pessoas na direção.
    Caso alguém tenha interesse em saber como faço para desenvolver as habilidades técnicas de pessoas com insegurança na direção.
    Busque nossas redes sociais: Direção & Vida
    Wellington Gomes

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