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O Estado não é você e você não me representa

Acordo atrasada, eu sempre cheia de coisas por fazer e atrasada; eu que, muitas vezes, sinto: tomo conta do mundo, conheço o ritmo dos dias e compreendo (pouco) os que vão comigo. Mas os amo com tal veemência que sou capaz de qualquer coisa para defender a nossa paz .
Abro as janelas e observo o dia: está cheio de sol depois de dias frios e nublados.
Ah, suspiro, que manhã tão clara!
E o sol entra pela janela, e eu gostaria de olhar a Mantiqueira verde-escuro, esmeralda da manhã com seu serpenteio de morros e montes, cercada de água, protegida por folhas.
Ah, manhã entre manhãs, me deixo dizer baixinho.
Meu coração não sabe o segredo de deter poluição, queimadas; meu cérebro me lembra que para tornar este planeta melhor é preciso deter imediatamente a emissão de CO2 de toda a Terra.
Pudera eu, linda manhã, deter a escuridão que nos aguarda… Mas tomo meu café, olho lá fora, e sei que, embora tão distante, o tempo será outro e há de chegar o dia em que plantaremos árvores, faremos nascer peixes e despoluiremos o ar porque é preciso. Há de chegar o dia que nós, humanos irmãos da Natureza, seremos mais humanos e menos egoístas, semeando o futuro para outros seres: os humanos que virão.
Penso nos que sucumbiram à Covid,virão os dias iluminados que eles, os que morreram, não verão. Penso no zumbido das abelhas que eles jamais ouvirão e nas nuvens altas e brancas contra o céu anil que os seus olhos não poderão acompanhar.
600 mil mortos no Brasil estão esperando justiça, a CPI da Covid vai entregar os relatórios para Aras (rárárárá) e no STF ( que coisa boa, essa!) e tomara que encaminhem à ONU, à OMS e, sobretudo, Haia.
Os senadores farão isso em nome de 600 mil pessoas que tiveram suas vidas descontinuadas, devastadas, interrompidas. Livros ficaram pela metade, aquele jantar com a família não foi possível, aquele beijo e aquela despedida não puderam acontecer, aquele diploma não foi levado a termo. Os filhos não disseram adeus, a família não pode velá-los . Faltou oxigênio, vacinas, sabedoria. Um general sem rumo foi ministro no ponto mais alto da pandemia. Um presidente esbravejou contra os pesquisadores e instituições e, na semana passada, acabou por matar nossas esperanças cessando verbas para pesquisa. Transbordou a baba grossa da ignorância: “O Estado sou eu.”
Esta semana, as escolas voltarão a funcionar. Muitas contarão os mortos. Alguns descobriram que não viraram jacarés, mas que foram usados como pano de chão pela escória.
Pai e filhos nem falam mais publicamente.
O Brasil aprendeu duras lições neste tempo genocida, de ódios crus e com vísceras expostas.
Acordo atrasada, mas estou viva. Tive Covid, mas sobrevivi. E os outros?
As janelas abertas, ah, manhã entre manhãs, que dia desenhado em azulejos e escrito na pedra, a ferro e fogo.
Mas observo o dia: está cheio de sol.
E de esperanças: o Estado não é você e você não me representa, penso.
E há muito sol lá fora.

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