Negacionistas, uma hipótese

Professor Gustavo Montoia

Há alguns anos estamos conhecendo negacionistas da ciência e da democracia. Terraplanistas, anti-vacinas, conspiracionistas que se baseiam em suposições sem nenhum método científico. São as mesmas pessoas que compartilham notícias sem verificar, que sempre pensam que existe “algo por trás”, que a desconfiança beira à irracionalidade.

De alguma maneira, estas pessoas se sentem à margem da sociedade. Pessoas mais conservadoras que se sentem ofendidas por uma pauta progressista, pessoas que, apesar de ter até algum grau de escolaridade, se sentem à parte do pensamento científico, pessoas que não sabem lidar com as redes sociais – e, assim, separar o joio do trigo.

Algumas dessas pessoas possuem uma formação social na ditadura militar. Neste período, elas passaram sua adolescência ou juventude à margem do que realmente estava acontecendo. Diante do silêncio da maioria da sociedade daquela época, tudo parecia bem, mesmo que não percebessem a arbitrariedade que ocorria nas instituições públicas e que muito herdamos até os dias atuais.

Alienadas de um propósito opressor, o que aparentava é que as coisas estavam bem. Reclus, um geógrafo do século XIX afirmava que é muito mais comum as pessoas serem conservadoras, e mais, é comum as pessoas se conformarem com a realidade.

Também encontramos pessoas que se sentiram excluídas diante de alguns progressos sociais – falha do governo, claro. Diante de políticas habitacionais como o Minha Casa, Minha Vida, do Bolsa Família, entre outros programas sociais, um grupo realmente ficou à margem. São pessoas que possuíam uma renda que, apesar de oferecer algumas boas condições na vida, não permitia financiar uma casa própria e, ao mesmo tempo, não participavam dos programas de financiamento público, pois possuíam uma renda superior às regras. Ou seja, elas ficaram no meio daqueles que viviam bem e possuíam o que desejam e daqueles que usufruíram dos programas do governo. Para elas, o que sobrava era pagar um elevado imposto de renda.

Assim, aumentou o número de desiludidos, descrentes, que nesta onda de relativismo e desapontamento às autoridades públicas, ao lado da escancarada corrupção, buscaram outro caminho para pertencer.

Hoje, fazer parte deste grupo é ter identidade, sentimento de pertencimento e até um grau de superioridade em relação aos outros. O exclusivismo, típico das religiões, produz um empoderamento que os fortalece e une na desconfiança a tudo, ainda que algumas coisas soem irracionais.

Parte significativa dessas pessoas saem às ruas sem máscara, acreditam que tudo é uma conspiração e, no direito à liberdade de expressão, manifestam-se pelo fim dessa liberdade. Aclamam diariamente a expressão “cidadão de bem” para todo aquele que concorda com suas posições – sem questionar, claro.

A produção dessa mentalidade, essa psicoesfera que carrega consigo crenças, práticas, desejos e uma linguagem em comum, é bem parecida à eugenia do século XIX. O dito cidadão de bem é como aquele europeu do século XIX que pensava participar de uma civilização superior às outras. E isso dava o direito de dominar à força.

O cidadão de bem, na prática dessas pessoas, não são pessoas que agem de forma correta diante de um contrato social ou pelo fato de seguirem as Leis corretamente. O cidadão de bem é aquele que concorda com suas posições. Quando isso não acontece, resta a difamação.

Precisamos reencontrar estas pessoas. Pois o resultado disso também se deve às falhas de governos anteriores, que muitas vezes ridicularizavam aqueles que pensavam diferente, principalmente, conservadores. Atualmente, um caminho parece difícil, mas, precisamos encontrá-lo, também em nossa autocrítica.

Gustavo Montoia é geógrafo e doutor em Planejamento Urbano e Regional pela UNIVAP. É docente dos Colégios Univap e da EE Francisco Feliciano F. da Silva (Verdinho) e pesquisador-colaborador do Laboratório de Estudos das Cidades da Universidade do Vale do Paraíba.

Deixe uma resposta

Top
WhatsApp chat
%d blogueiros gostam disto: