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Natureza, amormeuzinho, que o Ano Novo te preserve

Por Esther Rosado

O ano quase acabando, tão pouco para o Natal e Ano Novo, este 2020 foi aziago, estou louca pra me sacudir feito um cachorro molhado e tirar essa nhaca de cima de mim.

Vejo os anúncios poucos de Natal, blém, blém, blém, eu quero mais tirar esta máscara que se me colou ao rosto, Fernando Pessoa. Tanta coisa aconteceu comigo e com os outros, Vida, tanta coisa que nos feriu e consolou. Pessoas que eu amava morreram, amados da vida dos outros também e vamos todos caminhando juntos, amores, amigos e inimigos, gente tão perversa nos governos, genocidas, matadores de árvores, esperanças, tudo caminham lado a lado. Eis a Vida.

E Janus quase se mostra, esse deus mitológico de duas caras, uma aponta o futuro, a outra olha o passado, velha, substituível, feita para ir embora , rendo-me às esperanças de 2021.

Tento fazer, assim, de cabeça, um rápido balanço de tudo quanto nos ocorreu: a alma pouco predisposta a acompanhar o raciocínio de quanto ganhei, quanto perdi. E a pergunta inevitável: entrarei no próximo ano e viverei mais quantos?

O novo ano quase se inaugurando, ainda nem nascido. Calço os meus pés cumpridores, acostumados a ir e vir. Bebo água, estará poluída? Sento-me e me levanto; folheio livros, digito textos. Escrevo, porque nasci para duas coisas: nasci para ensinar e escrever. Digito os textos com a preguiça macia que o calor traz, e olho para as pessoas, sempre, sempre procurando descobrir nelas a verdadeira identidade. Observo-as, olho-a nos olhos para enxergar-lhes a alma, coisa tão difícil de executar. “Ah , para de me olhar dentro dos olhos, assim eu fico sem graça.”

Que faria com o resto dos dias que faltam para acabar o ano? Serei feliz, serei triste? Terei que escolher caminhos novos? Que outras dificuldades, senão as de hoje, aparecerão sem que eu me dê conta ou perceba? O que será de nós em 2021?

Meu coração não sabe das respostas. Meu coração quer ser feliz.

Bate meu coração brasileiro, paulista, inquieto e amedrontado. Bate meu coração corinthiano dentro do peito. Bate meu coração endoidecido, simples, musical. Bate. Este ano, eu tive um infarto, usei máscaras inúmeras, estou em paz, digo, mas não repito.

Espero os dias, uns após os outros, e neles deposito as esperanças. É possível ser plenamente feliz neste país de famintos, analfabetos, desesperançados crônicos? De tristes, de desengonçados, de gente sem saúde e sem respeito?

Que velhos caminhos retomarei sobre os meus próprios passos? Por que trilhas buscarei novas estradas? Usarei muitas máscaras ainda até que tire todas e leve no rosto apenas a definitiva?

E as distribuo de acordo com as necessidades, preencho as lacunas, quem sabe se elas possam contribuir para o voo invisível do pássaro que nos habita? Ah, eu sei que por debaixo das asas desse pássaro cabe tudo e nada cabe.

Amealho lembranças, gestos, afagos, carinho, beijos, mensagens, todos os eu-te-amo ditos. Guardo saudades, guardo ausências, guardo a falta que tudo me faz.

Amealho lembranças, sorrisos, histórias de passarinzins, dirimim. Tão perigoso viver, Guimarães Rosa. Tão perigoso não viver…

Eros e Tânatos habitam esses dias, fim de ano e começo de outro, apenas marcas no tempo.O melhor são as marcas do coração…

Para o Ano Novo? ninguém, em nenhuma parte deste planeta, coma lixo.

Que estejamos juntos, sempre, altos e baixos, pretos e brancos, gordos e magros, esquerdistas e direitistas, gente de todos os lugares, de todas as bandeiras, os humanos.

Que todos os sonhos, pirlimpimpim, sejam realidade.

Que nenhuma árvore morra, que não se quebrem as asas de nenhum pássaro, que não se corrompam os rios, que não se matem os peixes, Natureza amormeuzinho; que os ecossistemas inteiros sejam preservados. Que aprendamos a voar; que ofereçamos ao outro não somente o que nos sobra, mas o que também nos fará falta.

Feliz Natal, feliz Ano Novo para todos nós.

One thought on “Natureza, amormeuzinho, que o Ano Novo te preserve

  1. Mas, e se fosse possível transcender a todas dores do mundo? E se desse para viver e somente ser feliz? E se todas as cores fossem brilho? Todos perfumes, perfumados? Todos os toques, afagos? Palavras, cortejos?
    Para entender o bem, também é necessário ter visto o mal. A claridade não faz sentido sem conhecer ao menos um ponto de escuridão. As dicotomías só existem para que possamos escolher qual caminho.
    Perdemos queridos, nos estancaram o ar, trancafiaram o sol! Mas se esqueceram de que é na dor que se busca o alívio. Não tem remédio, nem vacina; tem o desejo de mudar e recomeçar melhor. Vamos ter de enterrar muitos cadáveres que não são corpos. São fragmentos de infelicidade, de trevas, do egoísmo. Este é o momento de decidir qual a cara da moeda.
    O sol nunca deixa de brilhar!

    Obs: este é meu presente para vc, vcs, todos nós .

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