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Não haverá Natal, Jesus morreu de Covid

*Texto de Gustavo Montoia

Cheio de promessas, com anjos cantando e visita de pastores, Maria deu à luz a um menino, chamado Jesus. Com quase dois anos de idade, estourou uma pandemia no mundo romano. Com o crescente número de mortes, algumas regras foram impostas: uso de máscara, distanciamento social, regras básicas de higiene e alguma busca científica para a cura.

Há uns 3 mil quilômetros dali, 3 homens receberam a mensagem do nascimento daquele que seria chamado filho de Deus. Aquela estrela anunciando um mistério divino a ser revelado, gerou neles uma busca incansável, que durou quase dois anos. O que eles não esperavam era a pandemia no vasto Império Romano.

Mas quem iria segurar aqueles homens? Conheciam plantas medicinais e isso era o suficiente! Contudo, não imaginavam uma doença espalhada em meio a aglomeração. Um deles, começou a apresentar sinais de febre, dores no corpo, dificuldade em respirar. Com muita tristeza ficou em uma hospedaria, a quase 900 quilômetros do objetivo. Gastou o ouro que levava para presentear o pequeno Messias em seu tratamento.

O segundo adoeceu 15 dias depois e ficou em estado tão grave que veio a óbito. O incenso que levava foi usado em seu sepultamento. O último deles ficou admirado por estar saudável. Era o mais novo, porém, petulante – se considerava o mais sábio. “Faltou fé a eles, pois essa doença é para os fracos”.

Este encontrou Jesus, com quase dois anos, aos cuidados de sua mãe, enquanto José estava trabalhando. Chegou, foi bem recebido, Maria o serviu com todos os cuidados e ele conheceu o Verbo Vivo. “Se este homem chegou bem, só pode ser um encarregado divino”, ela pensou.

Dias depois de sua partida, a mãe de Jesus teve febre, dores no corpo, ânsia, diarreia. Em uma noite, a falta de ar levou a sua vida embora. Jesus, apesar de apresentar menos sintomas, morreu no dia seguinte. O desespero de José ao cuidar da sua esposa não o fez perceber que aquele pequeno também estava adoecendo. Maria e Jesus foram embalsamados com a mirra daquele homem que estava assintomático.

Viúvo, José também ficou sabendo que Jonas, um vizinho, adoeceu. Deixou esposa e o filho Pedro. Uma outra família inteira adoeceu, daqueles meninos cheios de vida que ele viu quando foi a Betsaida, Tiago e André.

José morreu sozinho. Às vezes se questionava se a visão do anjo que teve foi um delírio ou se Deus resolveu não cumprir sua promessa. Não tinha a resposta. A pandemia levou o seu sonho embora. A pandemia levou embora o que fazia diferença em sua vida e potencialmente faria para o mundo. Não havia motivo para contar a alguém o que aconteceu naquele 25 de dezembro.

Há luto no Natal. Haverá luto em um ano que não será novo para mais de 180 mil brasileiros. É disso que se trata.

Professor Gustavo Montoia

Gustavo Montoia é geógrafo e doutor em Planejamento Urbano e Regional pela UNIVAP. É docente dos Colégios Univap e da EE Francisco Feliciano F. da Silva (Verdinho) e pesquisador-colaborador do Laboratório de Estudos das Cidades da Universidade do Vale do Paraíba.

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