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NÃO EXISTE CIDADÃO DO BEM

Respinga das eleições de 2018 a ideologia de que você é um cidadão do bem dependendo de quem vota. Geralmente, esse discurso vem recheado de moralismo, religião e volta aos valores tradicionais – algo que não possui muito significado.

Aqui na cidade de Jacareí, na inauguração de um diretório partidário, essa ideia foi usada, pois “passa a ter um partido para o cidadão do bem”. Fico a me perguntar o seguinte: caso você não vote nos ideais desses ditos cidadãos, você passa a ser do mal? Na política existe apenas um lado correto? Um partido é apenas o guardião da moral e dos bons costumes e os outros são vilões?

Para aqueles que batem no peito afirmando não possuir ideologia (como se isso fosse algo mal), a ideia de cidadão do bem é uma ideologia com raízes racistas. Pois ela separa o bem de um possível mal. Se você é cidadão do bem, os outros são cidadãos do mal e isso o torna superior a eles – dessa maneira, somente você ou o grupo que conclama a moralidade possui a única resposta para todos.

Sendo os outros, as pessoas que não sabem o que é o bem – você pode, então, passar a dominá-los ou simplesmente desrespeitar as suas pautas políticas. Quem não concorda com os tópicos de sua visão política se torna um rival, inimigo, alguém a ser combatido ou calado.

Isso não é algo novo na história. Aliás, o olhar histórico deve ser sempre uma análise clínica sobre os caminhos que escolhemos enquanto sociedade para não escorregar nas crueldades já ocorridas.

No final do século XIX, uma pseudo teoria científica afirmava que os europeus caucasianos (brancos) eram superiores aos africanos e asiáticos. Eles, então, tinham a permissão de ensinar estes povos inferiores. Foi uma bela desculpa para dominar seus territórios, explorar seus recursos naturais, escravizá-los e ignorar a sua cultura. Os europeus eram os cidadãos do bem de sua época e os outros povos eram aqueles “que não sabiam direito o que fazer”, por isso, realizaram atrocidades contra povos africanos e asiáticos.

Essa ideia de uma classe ser superior a outra também vem do racismo que perpetuou nossa escravidão por mais de 300 anos e de uma classe política que sempre buscou vantagens na manipulação das massas – trabalhadores, pessoas pobres, que, para eles, eram apenas algo a ser usado e jamais opinar politicamente. Claramente um pensamento anti-cidadão, desumano.

Por isso, não existe cidadão do bem. O que existe é cidadão! Um país cheio de cidadãos com pensamentos diferentes do ponto de vista político e isso não os torna maus desde que os limites da humanização não sejam ultrapassados. Todas as vezes que um grupo usa um discurso para inflar o ego daqueles que pensam dessa forma corremos um sério perigo enquanto sociedade, cujas Leis, cuja democracia e direitos humanos devem ser respeitados. O pensamento único, afirmou Milton Santos, é o embrião do totalitário.

Professor Gustavo Montoia

Gustavo Montoia é geógrafo e doutor em Planejamento Urbano e Regional pela UNIVAP. É docente dos Colégios Univap e da EE Francisco Feliciano F. da Silva (Verdinho) e pesquisador-colaborador do Laboratório de Estudos das Cidades da Universidade do Vale do Paraíba.

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