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NA ESTRADA DOS DIAS, EIS A PRIMAVERA

*Esther Rosado

Mas, ah, existe no ar de setembro uma doçura nova, um vento leve que prenuncia a Primavera, nada da secura até agora manifesta. No ar, meu lado bicho fareja as chuvas que virão nos fins de setembro e começo de outubro, dos brotos que se guardam na terra, sob a tímida forma de sementes…

Mas, ah, existe este satélite que paira amarelo no horizonte; seu nome é Lua, tão bela que quase nunca ousamos olhá-la sem que dela tiremos os olhos, finjamos tristezas, que bata o nosso coração tão longe de virtudes. Olhando a Lua é que nos descobrimos imperfeitos e trágicos, com a cara semelhante à de um palhaço, este risco no olho, esta boca, esta gravata hilária.

Estes cheiros no ar, esta penugem nos frutos, estas flores de Inverno, envergonhadas, esta banheira cheia d’água, este calor infernal que se aproxima, esta face enigmática do viver: como será o futuro? Por que cheguei até aqui?

Sempre gosto de ensinar as Horas, deusas gregas e mães das Estações, essas mulheres que presidem os dias, e que nos permitem saber os ciclos dos anos, os dias dos meses, o ir e vir das datas celebradas, os aniversários que se comemoram, as ampulhetas que coam os grãos de areia, o tempo que foge, que vai e sempre, sempre retorna…

Um dia, ainda menina, descobri a morte. E descobri que poderia também morrer. Que poderia “também”,como qualquer outro ser,estar à disposição e à mercê da morte. Chorei, fiquei de olhos inchados; meu pai me consolava, segurando a minha ainda pequena mão: “É assim com todo mundo… há muito, ainda , o que viver…” Passei anos e anos tentando imaginar como driblaria a morte, como a enganaria, fugiria dela. Criança, estava, na verdade, montando o meu xadrez.

Mas, eis que se anuncia a Primavera.

Mas, eis que se aproximam as Horas gregas trazendo uma nova estação.

Meu coração recebe esta dádiva de Deus: eu participo, de novo, do muito que há para se viver. Quem acredita na morte quando há um botão por abrir, uma folha por nascer, uma roseira e suas rosas, um sentimento doce e recém descoberto?

Meu coração, às vezes, quer ser duro como qualquer outro coração. E não consegue, bem feito!

Mal consigo esperar pelos brotos, Horas, mal consigo… Sei que a qualquer instante pode , ainda, fazer um friozinho que nos sugira lã; mas olho a estrada dos dias, acerto o ponteiro do relógio (de todos os relógios da casa) e fecho os olhos imaginando os amarelos, os verdes, os rosas e os azuis. Vejo os vermelhos, os roxos. Eis que na estrada do tempo, trazida pela mão das Horas, a Primavera vem e traz consigo o amor de Deus, uma coisa qualquer que se renova, um abraço tão bom como o café com leite da infância, o pão cheiroso sobre a mesa. Pólen, fruto e semente. E a Vida é de novo.

Mal consigo esperar pelos brotos, Horas, mal consigo… Sei que a qualquer instante pode , ainda, fazer um friozinho que nos sugira lã; mas olho a estrada dos dias, acerto o ponteiro do relógio (de todos os relógios da casa) e fecho os olhos imaginando os amarelos, os verdes, os rosas e os azuis. Vejo os vermelhos, os roxos. Eis que na estrada do tempo, trazida pela mão das Horas, a Primavera vem e traz consigo o amor de Deus, uma coisa qualquer que se renova, um abraço tão bom como o café com leite da infância, o pão cheiroso sobre a mesa. Pólen, fruto e semente. E a Vida é de novo.

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