Mãos sábias, mãos ágeis

Fios e agulhas. Com eles, teço o meu jardim em tempos de Coronavírus. Flores coloridas, folhas alongadas. Fiquei imaginando ontem que trago em mim muitas mulheres que teciam, gerações inteiras que usavam fios, linhas e agulhas, fios de muitas cores, que tricotavam lãs, que usavam teares, fusos, que pedalavam rocas, que costuravam agasalhos para os seus.

Sou a penúltima das antigas mulheres que sabem tecer e fazer jardins de lãs e linhas, missão que parece não mais pertencer à minha filha e às minhas duas netas que vivem tão longe de mim.

Com o frio chegando, fico a imaginar agasalhos que dezenas de mães que pertenceram à minha família, em passadas gerações, fizeram para os seus filhos, meus parentes longínquos. Sentadas diante de um fogo antigo, lareiras que deram origem à palavra “lar”, idealizavam para o frio europeu, o que obstasse vento e neve e pudessem, eventualmente, machucar a pele e a carne dos seus.

Certamente que embrulhados no que as mãos machucadas teciam, estavam protegidos. Mãos sábias costuravam meias, mãos ágeis transformavam em agasalho fibras e folhas, raízes.

Tecer e costurar pertencem a um universo inquietante, contexto do que é amar. Assim como fazer remédios, mezinhas, extratos, curar o filho em febre, o marido em tosse, a sogra moribunda, a mãe de cabelos brancos. Curar.

Quantas centenas de milhares de gerações passaram até que fôssemos a um balcão de farmácia de pedíssemos remédios embalados, bulas anexas?

O prazer de tecer também é assim: hoje podemos comprar algo que nos resguarde do frio, mas o prazer de tecer e bordar, de elaborar o agasalho para agasalhar o outro é tão bom; traz consigo, no entanto, uma doce melancolia, aquela que aprendemos com nossa mil-avó, ponto a ponto, laço a laço, fio a fio, desde o ponto-meia e ponto-inteiro até bem mais para trás no tempo, quando a primeira agulha deu o primeiro nó.

O último nó desde então é o primeiro, uma mulher passa para outra, um homem aprende, todos tecemos um tecido cuja trama se chama Vida, existência. Sentados hoje diante do que nos faz aprender, tevê, youtube, Pinterest ou o que seja, vamos, nesta quarentena, ao encontro das criaturas que fazem parte do nosso DNA, dos que nos legaram naquele nó, naquele laço, e produzem, a cada pequeno ponto, a alegria de construir.

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