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Lugar, no devido lugar

Acontece quando menos se espera, dizem.

Um dia qualquer de nossas vidas, fazemos as contas do que somos, o que vivemos e o que poderíamos ter feito, e descobrimos aquele instante, um fragmento de segundo, um acontecimento qualquer que mudou nossas vidas. E então, desolados, nos perguntamos: Mas por que não fiz tudo diferente? Mas por que não agi corretamente? Mas por que, por que, por que…

É assim com todo o mundo, comigo e com você.

Egoístas, vamos forçando a vida a acontecer ao nosso modo e jeito, não respeitamos o ciclo natural das coisas, acreditando que somos infalíveis demais, que podemos tudo, que a sorte está ao nosso lado, que nada e ninguém poderá mudar o trajeto dos nossos planos. Mas a sábia vida, com sua capacidade de nos ler a alma, aborta nossos planos, fecha as portas, diz-nos não, não e não.

E nos surpreendemos, de repente, a imaginar os porquês.

Fiquei pensando na personagem de Machado de Assis, Brás Cubas, que quando doente e levado, em seu delírio de morte, à frente de Natura, a mãe de todas as coisas, pede que seja poupado, que se lhe dê mais um tempo, pois tinha 64 anos e havia muito ainda o que fazer. A resposta dela, no entanto, toca-lhe os ossos com o frio do desprezo: “Sou sua amiga, sua maior inimiga” e afirma que ele, até aquele instante, nada havia feito de bom e já não haveria tempo para fazê-lo. E leva-o consigo para o “país desconhecido”, para o outro lado, de onde ele escreverá suas memórias.

Brincamos com a Vida? Todos brincamos. Manipulamos, mentimos, fuxicamos, simulamos ser o que não somos. Esse parece ser o lado feio e triste que o ser humano traz. Mas ela é sábia e nos dispensa quando queira, nos envia de volta para casa, nos aponta o dedo e diz: Quieto aí, eu ainda mando nessa coisa que você imagina ser só sua.

Acontece com todos, sei que acontece. E quando acontece, é hora de fazer as contas, saber o que se perdeu, chorar.

A vida é sábia, delicada e boa. É só saber ler, nela, o livro das obrigações humanas.

A vida nos ensina que nada é impossível, que tudo vem e vai. Que somos transitórios, que não há nada em nós de divino ou extraordinário, que somos apenas um entre bilhões de seres. Que a alteridade é imprescindível, que tudo vai bem quando sabemos, sabiamente sabemos, o nosso lugar no mundo. O nosso lugar e o dos outros, que também são como nós, que também merecem e querem o seu devido lugar.

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