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EXCESSO DE CUIDADO OU CIÚMES DOENTIO? – Odete Guerra

A questão que trago hoje, querido leitor, surgiu quando liguei o rádio e tocava uma música cantada pela dupla Henrique e Diego, que dizia: “ciúme não, excesso de cuidado, repara não, se eu não saio do seu lado, tem uma câmera no canto do seu quarto, um gravador de som dentro do carro, e não me leve a mal, se eu destravar seu celular com sua digital, é tudo por amor”. Enquanto dirigia ouvindo o hit sertanejo, pensava se seria possível alguém viver sob um controle como esse, e, ainda, como algumas pessoas usam do controle como sinônimo de amor? Diante dessa situação, necessário se faz distinguir o ciúme natural do tóxico/patológico. O primeiro, aqui chamado de ciúme natural, é um sentimento humano tal como a tristeza, a raiva e a alegria, por exemplo. Está presente em todas as relações de casais, e no cotidiano. Ouso afirmar que todos já experimentaram sentir algum tipo de ciúmes, seja dos pais, de um amigo, dos filhos, dos irmãos, ou o mais comum, do parceiro amoroso.

Apresenta-se como um sentimento breve numa resposta a fatos, mas não subjuga, não constrange, não oprime e tampouco neutraliza o outro e a si próprio, uma vez que não existe sofrimento para os envolvidos, sendo apenas um afeto natural. Num outro giro, o que torna o ciúme patológico é a sua intensidade, o distúrbio do pensamento do medo de perder a pessoa amada para outra, de intolerância e de necessidade de controlar a vida do parceiro(a).Num caso concreto, tive um paciente que procurou atendimento porque sentia muita angústia e medo de ser traído, pois viajava com frequência em função de seu trabalho e passava vários dias fora de casa, ficando a maior parte do tempo atormentado pela fantasia de traição, por isso seguia os movimentos da esposa, monitorando-a pelo localizador do carro dela. Não bastasse, exigia que ela lhe dissesse com quem tinha estado, qual roupa tinha vestido, o que tinha conversado na sua ausência, entre outras situações constrangedoras Observa-se em casos como esse uma incapacidade mental de processamento dos sentimentos mobilizados, corroborando para acentuar a angústia do medo de rejeição e de que outra pessoa possa desejar a pessoa “amada”. Há o predomínio da insegurança, da desconfiança, do medo do abandono pela pessoa “amada”, da necessidade de controlar e ter posse da vida dela, resultado da baixa autoestima e do egoísmo. Nesses casos, o ciúme não tem nada a ver com amor, visto que na raiz está o ciúme patológico – que é o desejo de não perder, de não ser preterido. De acordo com a Psicanálise, todo ciúme tem sua origem no inconsciente e nos padrões da infância, e as experiências emocionais mobilizam e reeditam esses sentimentos durante a vida. Em um tratamento, para casos como esses, é importante trabalhar os distúrbios de pensamento e o próprio paciente compreender o que está subjacente ao ciúme patológico manifestado e o seu comportamento abusivo. Nesse sentido, uma vez que a maneira de pensar determina as emoções, será necessário reformular as ideias sobre a origem delas e os vários sentimentos suscitados, tais como a raiva, o ódio, o amor, a baixa autoestima, o medo do abandono, a falta de amor-próprio, o desamparo, e, assim, poder viver relacionamentos saudáveis, em que o amor e o controle (excesso de cuidado) não sejam sinônimos, como expressa a música citada inicialmente.

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