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Está chegando o Natal: alguém reconhece o Salvador? – Gustavo Montoia

É natal na favela! Uma mulher está em trabalho de parto lá no alto do morro aonde ambulância não chega, e descer até a avenida sem cogitação: vielas íngremes que podem causar tropeço, esgoto escorrendo ao redor, balas perdidas que dificilmente atingem brancos e ricos. Não existe estrela do oriente, nem reis magos presenteiam, reina o silêncio diante da vida quando os anjos não têm a quem anunciar.

Na maca do pronto socorro também é natal, mas é possível, que ali, naquele corredor, nem chegue a nascer: o natimorto passou do tempo de ser atendido. Não será necessário se preocupar com a fúria de Herodes em sua ambição para acabar com o nascimento de um líder. Despreocupado com a realidade desgraçada dos pobres, ele continua seu governo para aqueles que estão ao seu redor, em nome da crença de sua própria divindade. Herodes já comprou todos aqueles que poderiam se indignar com as mortes no corredor de um hospital, sendo os religiosos, o grupo principal.

Dia 25 de dezembro se faz nas palafitas: onde é chamada de terra sem Lei, não chega escola, saneamento básico e o coronel manda em quem quiser. Não houve governo capaz de mudar essa dura realidade, apesar das placas anunciando obras faraônicas e orçamento de “Primeiro Mundo”. Não existe Salvador e a figura mítica do Papai Noel não consegue chegar nesses lugares opacos, sem estrelas para apontar o caminho, nem eleitores para convencer os deputados.

Todavia o Salvador insiste em nascer. Religiosos preocupados com sua pompa não conseguem perceber, o povo angustiado quer sobreviver e somente os olhos atentos dos poderosos temem a sua vinda. Por isso, ele tem que fugir da matança planejada pelo governador, quando se houve um clamor daqueles que perderam seus filhos e não esperam ser consolados, como naquela aldeia que o garimpo contamina a água, o tiro expulsa os índios, e ninguém se preocupa se o “Grande Tupã” também está presente ali: o menino que nasceu tem, mais uma vez, suas terras roubadas.

            Disse o profeta Isaías que o Salvador viria em um mundo em trevas, em terra angustiada e sobre os que habitavam na região da sombra da morte, mas quem o reconheceria? Ele escaparia da morte pela polícia, pela milícia ou pelo tráfico? Ao condenar a injustiça social, ele seria acusado de comunista pelos conservadores confortáveis em seus sofás? Ou comungaria com todos os valores socialistas a ponto de ser acusado de um instrumento dos burgueses?

            O Natal é sobre Deus no meio de nós, mas não o reconhecemos. É sobre entender que José, que Maria desejam viver o bem de cada dia independente das longas discussões sobre economia e ideologias que tomam conta dos outros que não vivem a sua dura realidade e pensam saber o que de melhor deve ser realizado para eles, nessas trevas que hoje chamamos de polarização. Ninguém desce à manjedoura, à estrebaria, nem a dar ouvidas a Simeão, Ana, aos pastores de Belém e ao sofrimento de Maria, em uma sociedade que a mataria por conceber antes de se casar.

Gustavo Montoia é geógrafo e doutor em Planejamento Urbano e Regional pela UNIVAP. É docente dos Colégios Univap e da EE Francisco Feliciano F. da Silva (Verdinho) e pesquisador-colaborador do Laboratório de Estudos das Cidades da Universidade do Vale do Paraíba.

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