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Espiadora de bem-te-vis

*Por Esther Rosado

Acordar muito cedo tem lá suas vantagens: com hora marcada , em alvoroço de penas e bicos, os pássaros vêm com seu alarido ruidoso . Antes, quando não tínhamos desativado a fonte, eu acordava com os bem-te-vis fazendo barulho bom, bentevizando, sempre com a mesma canção. E pardais também vinham beber.
Quem disse que os pardais não são também lindas criaturas deste mundo? Os pardais sempre me chamaram a atenção por conta daqueles olhos espertos, inquietos. Serão feios? Não sei, não; acho-os especialmente bonitos, elegantes, fortes.

Mas, de um tempo para cá, acho que assim que começou a Primavera, os tais bem-te-vis migraram para a nossa casa ; dia desses, surpreendi um voo rasante sobre a piscina, batendo o traseiro na água, fazendo uma festa , estão sempre juntos o casal de bem-te-vis, vestindo uma roupa amarela e marrom, alardeando um bom humor de pássaros, saltando alegres por entre bambuzinhos, jasmins do Marrocos e buganvílias.

Uma tarde dessas, eu me sentei meio escondida para observá-los; desconfiaram, foram para os fios do telefone e , como ventava um pouco, arrepiaram-se e ficaram ali, equilibrando-se como dois dançarinos. Então, voaram sei lá para onde, é Primavera e a gente nem sempre pode saber de pássaros nesta estação. Fotografados, ficaram lindos entre as folhas do jardim.

Cantam, voam, inquietos, talvez procurando um lugar para fazer o ninho em árvores altas, longe das mãos dos humanos, um ninho grande, com uma entrada escondida na lateral, os bentevisinhos em grande alarido, esperando a comida…

Mas, voltemos aos bem-te-vis : surpreendo-os sempre. Sou uma espiadora de bem-te-vis; fico quieta, abro a janela e olho porque um dia também tive asas, acredite. Já fui inseto, já fui pássaro, já fui, certamente, uma tília qualquer em um bosque cheiroso. Eu me incluo entre os que acreditam que caminharam por milhões anos, desde a pedra até o ser que sou.

Se já fui uma lagartixa, um peixe, um elefante, uma rosa amarela, uma margaridinha, um cão faminto, uma tartaruga, um seixo, um cristal, tantas coisas, também já fui um bem-te-vi ; por isso mesmo é que fico olhando esses dois com tanta saudade do tempo que tinha asas.

Acha isso uma tremenda bobagem? Ah, é que você ainda não voou como um bem-te-vi e nem cantou como ele assim, todo vestido de amarelos. Então, não os espanto, vejo e ouço porque , humana, sou também parte da mesma natureza que os abriga.

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