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Eles não pensam, Pai, eles não sabem o que fazem.

Queria, nesta Páscoa, inventar histórias de ninar cansaços humanos, ponto final. Ter a capacidade de com um simples estalo de dedos, transformar impossibilidades e circunstâncias. O mundo está muito triste, eu dormi hoje à tarde e tive um sonho mau ou ouvi mesmo que o mundo está sem as vacinas de que precisa?

Tudo fora da ordem, meus sonhos se embaralham, eu não gosto de jogar dominó, mas jogo, eu tento encontrar respostas para o que não sei e há estradas que trilho sem querer. Mas é Páscoa e me lembro de Fernando Pessoa: “Come chocolates, pequena, come chocolates…” e lá vêm lembranças de tantas coisas e fatos.

Eu me lembrei ontem, dia 31 de março, a prisão de um meu vizinho poucos dias depois do golpe militar de 64, sim senhoras e senhores, eu vi meu vizinho arrastado, gritando para que a mulher cuidasse das crianças, com um só pé do sapato lustroso já que era vereador na minha cidade, esquerda ferrenha, coitado, nunca mais voltou para casa.

Que triste será esta Páscoa, com seus tantos mil mortos, brasileiros como eu e você , e que jamais voltarão para casa ou se sentarão à mesa do almoço e comungarão com a família o tempo as Ressurreição de Jesus. Quem poderá, nesta pandemia, ressurgir entre os mortos ?

Que sentimentos teremos nós no futuro por tolerarmos a sensação de que nós, os brasileiros, agimos como aqueles que acompanhamos cada passo do Cristo rumo ao Calvário sem que tivéssemos feito nada para evitar a sua crucificação? Antes, pelo contrário, contamos mortos e mais mortos, permitimos que falte oxigênio e outras drogas imprescindíveis à intubação e acreditamos, um dia, que uma combinação, um kit “medicamentos” fosse salvar da morte os inocentes.

Morto Jesus, diz a história bíblica, seguiu-se a tempestade que espantou crédulos e incrédulos , três dias após a morte dele, eis que houve ressurgir dos mortos. Escrevo nesta quinta feira em que milhares de brasileiros serão infectados, também a caminho do Calvário, senão já nele.

Pilatos lavara as mãos diante do Mestre machucado e espancado, chicoteado e zombado diante da multidão: “Eu lavo as mãos do sangue deste justo” disse Pilatos; outros disseram ser apenas “uma gripezinha”.
Aprisionados dentro de seus próprios corpos, muitos brasileiros morrem sem poder respirar, sem oxigênio ou dignidade pessoal, atendidos e chorados pelos funcionários, médicos, enfermeiros e técnicos de hospitais, motoristas de ambulâncias. Ou esperam pacientemente deitados em macas, sentados em cadeiras, dentro das ambulâncias, seus berros pedem passagem.
Quatro mil vidas a cada dia e Pilatos lava as mãos.
Quatro mil vidas a cada dia e os empregos escorrem pelo ralo.
Quatro mil vidas a cada dia e as famílias choram seus mortos.
O que o Mestre pensaria dos hipócritas e traidores que deixam o povo morrer como moscas?
E o que os hipócritas, insanos e traidores pensam sobre os ensinamentos de Jesus, o Cristo?
Quieta, segue a multidão ao encontro da morte certa: com fome, morando em barracos, sem escola e sem trabalho. Apenas alguns podem comprar vacinas… falsas.
Que Páscoa é essa para comemorar?
Nos bolsos cheios de vaidade, ignorância e burrice reviram as notas da corrupção.
E quatro mil brasileiros por dia deixam suas casas para hospitais superlotados, falta de oxigênio e remédios.
Como podem pensar em ressureição os desumanos, os que zombaram das vacinas e os que as deixaram de comprar?
Eles não pensam, Pai, eles não sabem o que fazem.

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