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E É SÓ PENSAR POSITIVO?

*Por Odete Guerra

Quem nunca já ouviu que pensar positivo é solução para tudo! Mas será que o pensamento positivo realmente pode mudar a nossa vida pessoal, social e financeira?

A psicóloga Odete Guerra

Para entendermos um pouco da positividade dos pensamentos, precisamos saber que pensar é um processo mental, e que somos constantemente afetados pelas circunstâncias e experiências emocionais que carregamos, e que tais pensamentos são capazes de mobilizar nossos sentimentos e nossas emoções, influenciando diretamente nossa vida, seja pelo que ouvimos; o que lemos; o que assistimos; quando pensamos no passado, relendo as experiências já vividas; refletindo sobre o futuro, imaginando situações ainda inexistentes; bem como quando nos indagando sobre os problemas existenciais universais.

A todo momento estamos agindo, pensando e sentindo o mundo, e nem sempre temos consciência das emoções e dos sentimentos que estão se processando concomitantemente em nossa mente – capazes de definir o nosso modo de agir e ver o mundo.

A forma como as pessoas expressam seus comportamentos nas relações afetivas, profissionais e sociais é o resultado da experiência singular de cada indivíduo, formada pelos pensamentos, sentimentos, ações e reações. E, neste sentido, quando a vida desafia as pessoas em sua esfera pessoal, profissional, financeira ou afetiva, e ela esteja vivenciando conflitos que causem ansiedade, angústia, tristeza, causada pelo novo terá radicalmente prejudicada a sua capacidade cognitiva (pensar) e afetiva (relacionamento interpessoal).

O médico neurologista, autor de vários livros sobre o tema, António Damásio, afirma que as emoções e os sentimentos podem provocar distúrbios nos processos de raciocínio em determinadas circunstâncias, porém, são indispensáveis para a racionalidade.

Com base nisso, reflita comigo, quando você pensa em que costuma focar?

Você se visualiza uma pessoa tendente a pensar na dor, na lamúria, na raiva, na superação, na vitória, na alegria ou nas conquistas?

Responda para si mesmo essa pergunta de maneira muito sincera, porém, esteja certo de que tudo que se coloca de positivo tem a função de ajudar na capacidade psicológica de tolerar a dor e a frustração.

Flávio Gikovate, médico psiquiatra e escritor, escreveu que “tolerar bem frustrações não significa não sofrer com elas e muito menos não tratar de evitá-las. A boa tolerância às dores da vida implica certa docilidade, capacidade de absorver os golpes e mais ou menos rapidamente da tristeza ou ressentimento que possa ter sido causado por aquilo que nos contrariou”.

Por outro lado, os pensamentos negativos, do tipo “eu não consigo”, não tem solução”, “isso não é para mim”, produzem sentimentos de derrota, de desamparo e de desânimo, fazendo com que, de fato, não seja possível mesmo”

E por que podemos afirmar isso com tanta certeza?

Simples. Pois acreditar na vitória ou na derrota é a consolidação de uma crença. E crença é difícil mudar!

Assim, para obter êxito nas tarefas intelectuais que necessitem, por exemplo, de concentração, foco, resiliência e capacidade de adaptação, torna-se essencial reduzir as angústias vivenciadas no convívio com o outro e consigo mesmo.

O verbo “pensar”, na língua grega, significa “ponderar”, “raciocinar”, “refletir”, “avaliar”, “fazer uso da razão”, “julgar”, “ter prudência”.

Agora, como manter a positividade diante de todas as mudanças vividas e que ficaram marcadas em 2020? Mudanças estas feitas às pressas, sem planos ou certezas nesse contexto de vida que a pandemia de coronavírus trouxe.

Foram mudanças impossíveis de serem previstas, em que o mundo inteiro se fechou; num modo geral, cada indivíduo em sua casa vivendo situações de dor, de luto, de desemprego, de reinvenção, de duplicação da lista de afazeres em que todos precisaram e ainda precisam encontrar formas de compreender e lidar com o novo, com as angústias e as experiências dolorosas.

Continuamente, ouço profissionais da saúde e da linha de frente falarem das suas limitações e sofrimento psicológico, dos seus medos de adoecerem e de levarem a doença para as suas casas e contaminarem seus filhos, cônjuges, pais; além de todo esgotamento em conviverem com tantas mortes, ressaltando o sentimento de impotência diariamente.

É certo que esse momento que estamos todos vivendo existe um cenário ainda com muitas indefinições, que exige uma nova organização mental para o gerenciamento dos pensamentos e dificuldades em executá-los, uma vez que o psicológico sofre alternância entre momentos de estabilidade e de instabilidade.

E, falando em incerteza, este é um dos elementos que mais contribuem para a ansiedade, fazendo com que nos preocupemos a ponto de exigir demais de nós mesmos.

Em outras palavras, é querer sempre “chegar antes” dos acontecimentos para ter uma sensação de segurança, evitando surpresas desagradáveis, dúvidas ou problemas. O que é, sem dúvidas, impossível em contextos globais.

Pois bem, pensando na questão inicial apresentada, não duvido que pensamentos positivos tragam coisas boas, porém, o problema reside quando transformamos isso numa crença limitante. Como se apenas pensar positivo fosse suficiente no sentido de atrair como imãs, sem esforço, como num passe de mágica, o que se pretende.

Pensamento positivo é uma habilidade muito mais profunda do que a crença popular quer disseminar.

Não adianta só “mentalizar” para as coisas acontecerem.

A questão da fórmula “pense, acredite e receba” não é tão simples como os livros e palestrantes de autoajuda querem fazer crer.

Devemos lembrar que pensar é uma relação da razão com a realidade. Assim, o grande desafio é conseguir manter o equilíbrio entre razão e emoção, sob pena de comprometer a realização de qualquer atividade.

Administrar as emoções e os pensamentos são tão importantes quanto o domínio dos movimentos do corpo, tais como para nadar, jogar tênis, futebol, caminhar, praticar triatlon. Psicologicamente, a pessoa com visão positiva da vida acaba por acreditar mais em suas habilidades e lida melhor com o estresse e as adversidades da vida.

Isto posto, o apoio de um profissional costuma ser decisivo para ajudar a pessoa a compreender os motivos das dificuldades emocionais e a forma como reage a elas.

A terapia é um processo de autoconhecimento, onde é estimulado na identificação de descobrir em si mesmo forças para lidar com as mudanças, compreendendo fragilidades que impede o fortalecimento da autoconfiança, da autoestima e do próprio crescimento pessoal. Permitindo, desta forma, uma melhor ampliação da percepção para ler o mundo, pela percepção sobre si, sobre as pessoas e o mundo – com mudanças de comportamento de forma concreta, real, autêntica e não concentra nas ilusões e nos enganos, tendo mais clareza dos seus sentimentos.

Então, se desejar mudar algum aspecto da sua realidade tem de encontrar novas formas de pensar, de agir e de ser para enfrentar as mudanças transformadoras, o chamado novo estado mental.

Odete Alves Guerra é psicóloga

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