Acompanhe aqui os números da COVID-19 em Jacareí

Discursos que nos acostumamos

“Eis ali o Messias”, não acreditem - Gustavo Montoia

Pobre não reclama a falta de lazer. Deve-se contentar em ter um trabalho. Se quer ter um trabalho, não deveria exigir direitos trabalhistas, afinal de contas, não é justo o patrão ter custos se ele gera um emprego. Final de semana remunerado e férias pagas são custos muito elevados.

Criança, quando trabalha, aprende a ter dignidade e responsabilidade. Quantos de nossos pais trabalharam desde os 10 anos e são bem-sucedidos (mesmo que as pesquisas apontem que criança que não estuda e trabalha se torna adulto pobre). Se cursou até o ensino fundamental, o importante é ter emprego. Na realidade, até mesmo a universidade é para poucos: um espaço de privilégios deveria ser para aqueles que apenas fazem isso livremente, sem ônus público.  

Restos de comida em restaurante poderiam ser reprocessados, em formato de ração e distribuídos na merenda escolar, até porque, pobre não tem preferência alimentar. O que deve mesmo é comer.

O Estado não deve ter sistema público de saúde, pois isso se torna um peso para o orçamento de tal maneira, que uma hora se tornará insustentável.

O que deveria ocorrer mesmo em nosso país é a maturidade das massas de que disciplina e esforço geram resultados. É isso que tanto falamos de meritocracia (na prática, é o mesmo que falar que não existe desigualdade). Existem muitos exemplos de pessoas que superaram a pobreza mediante sua perseverança.

A função do Estado é controlar os corpos, estabelecer os limites morais, promover as vontades da maioria (minorias, seja de qual conceito for, devem se adequar), perseguir ideias e professores como cortina de fumaça, estabelecer ensino religioso, militarizar as crianças e os adolescentes, crer em deus, liberar as armas, calar os opositores.

Como esse discurso é normalizado no Brasil!

Uma hora e outra isso discursou o presidente. Uma hora e outra o pastor falou sobre isso no lugar de compartilhar o evangelho. Foi repetido em um canal de TV e os malucos das redes sociais tornam isso um mantra diário. O inútil vereador fez esse jogo em sua campanha, quando apenas legisla para mudar o nome da rua. Deputado que faz swing discursa fervorosamente que deve existir lei que defina família. Todos descansam em seus sofás, enquanto minguam qualquer possibilidade de qualidade de vida ao povo, que, inclusive possuem entre si pessoas que reverberam toda essa alienação.

Até parece proibido sonhar no Brasil. Risos e cabeça baixa são expressões de empresários e candidatos a cargos públicos, quando o que deseja o cansado patriota é apenas ter um trabalho que não roube seu tempo com a família com um salário que permita um bem-viver: alimento saudável, um passeio de final de semana, acesso à escola de qualidade e saúde pública, direitos trabalhistas que defendam o trabalhador de excessos (quem conhece nossa história, sabe), segurança pública que seja regida por Direitos Humanos; itens básicos que são constantemente ameaçados.

Normaliza-se a pobreza, e alguns ainda conseguem almoçar em restaurantes caros olhando o faminto que dorme na calçada sem nenhum pesar, pois “nunca há o que fazer”. O que importa mesmo é não “se tornar” uma Venezuela ou uma Argentina, mesmo que, em cada esquina, tudo fica pior.

Você está vivendo bem, satisfeito? Só escondendo-se em uma bolha para pensar que em nosso país melhoramos. Está desempregado, com dívidas, assustado com o rumo da nação? Então, por que caímos no discurso que não nos beneficia? Seduzidos pelo moralismo, com a usurpação do discurso da fé, alimentamos inimigos de “bons costumes”, enquanto a rotina mata a nossa alma. E com a campanha política que se aproxima, nossos poucos sonhos são repetidos em seus discursos, porém, com apresentação de práticas que não resultam neles, logo mortos no ano seguinte. Mas, uma hora, precisamos nos rebelar.

Deixe uma resposta

Top
WhatsApp chat
%d blogueiros gostam disto: