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Covid-19 e a Geografia que não pode ser ignorada

*Por Gustavo Montoia

De Wuhan, na China, em dezembro de 2019, com a primeira notificação da OMS a respeito de uma pneumonia viral, até o dia 26 de fevereiro de 2020 quando chegou em São Paulo, no Brasil, o vírus do COVID-19 se alastrou em nosso país, como uma onda de contaminados e um tsunami devido às negligências governamentais, o aumento do negacionismo e a imbecilidade de muitos letrados. De cidade em cidade, de dados dos estados até cada notícia sobre as nações, nunca se falou tanto em Geografia, sem citar o nome da ciência ou os apontamentos que geógrafos tanto se debruçam. Agora, as reportagens são sobre países, Estados-nacionais, não sobre multinacionais; são sobre pessoas que circulam, trabalham, não mais a mão invisível do mercado; são dos lugares expostos e como nada mais se sustenta diante de uma crise humanitária.

O COVID-19 é uma doença que compreendemos pelo “alargamento dos contextos”, nas palavras de Milton Santos, pois nada mais é local ou regional e cada vez mais, acontecimentos estarão ligados aos fluxos e aos fixos que envolvem pessoas, empresas e países. Da mesma maneira, medidas pontuais não serão suficientes para sair dessa crise, mas, é necessário “ler o mundo” e compreender as urgências ambientais para agir dentro do território, nesta realidade conhecida como meio técnico-científico-informacional.

É, mais uma vez, o Estado-nacional sendo reafirmado, como nos Estados Unidos, com o “Plano Biden” ou um Estado que se nega, como em nosso país, com esse liberalismo que não lê nem Adam Smith. A Geografia, ciência moderna do século XIX, tão complexa no estudo do espaço humano, que é realidade concreta que sociedade nenhuma pode escapar, não pode ser mais ignorada por nenhum ator que deseja se colocar como agente de mudança: planos de governo, candidaturas para cargos no executivo e legislativo, alcance e controle da pandemia, não podem mais ignorar a faceta do lugar.

E, em cada lugar, no Brasil, a pandemia escancarou a denúncia que a Geografia faz há muito tempo. Alguns lugares são invisíveis, de tamanha opacidade, que se tornam imperceptíveis por não possuírem eleitores “o suficiente”. Assim, ali, são ignoradas quaisquer condições de cidadania. Os grandes centros urbanos, por sua vez, locais de destino de maiores recursos, sofrem a escassez do mal uso do dinheiro enviado e o privilégio para as elites que perpetuam o atraso.

No Brasil, uma parcela da população urbana, habita 4922 cidades de até 50 mil habitantes. São 32% da população urbana do país vivendo em 88% das cidades, com infraestrutura insuficiente, que depende de programas de transferência de renda devido a falta de geração de empregos e com prefeituras que governam com dependência de repasses do Governo Federal. São governos locais que mantêm uma política de clientelismo, coronelismo e corrupção, inclusive com laços entre os entes federativos que alimentam esse quadro há muitos anos.

Assistimos, assim, escolas inadequadas, falta de médicos e hospitais, obras do governo que nunca ocorreram na prática, falta de segurança pública, tráfico de drogas, tráfico humano, insegurança alimentar, moradias precárias, falta de saneamento básico. Aliás, o maior fracasso dos governos brasileiros, é a não universalização do saneamento básico: a ausência de água potável, rede de esgoto, coleta de lixo, iluminação pública, limpeza urbana, matam pessoas, alastram epidemias e pandemias, contribuem para o fracasso escolar e não atraem o mercado formal.

Obras de saneamento básico não ganham destaque em campanhas de reeleição, porém, são as mais necessárias e as mais ignoradas. Quando necessidades vitais aos seres humanos não são atendidas, é como se ali, não existissem cidadãos como bem disse Milton Santos. Sua obra O Espaço do Cidadão, escrita em 1987, permanecerá atual por muito tempo pelo caminho tomado em nosso país. Não dá mais para ignorar a Geografia.

Professor Gustavo Montoia

Gustavo Montoia é geógrafo e doutor em Planejamento Urbano e Regional pela UNIVAP. É docente dos Colégios Univap e da EE Francisco Feliciano F. da Silva (Verdinho) e pesquisador-colaborador do Laboratório de Estudos das Cidades da Universidade do Vale do Paraíba.

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