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Como se fosse uma primeira vez

Tudo muda, eis a grande lição do tempo; e o que nos fazia chorar todas as lágrimas , de repente seca e não é mais vertente.

Mudam todas as coisas, cenários e paisagens, seres, coisas e criaturas. Sábio é Machado, “ o tempo põe-nos esquecimentos e cabelos brancos…” Verdade ou mentira?

Até os livros, tímidos e enfileirados nas estantes, envelhecem. Neles, eis que subitamente as folhas amarelecem… mas a velhice nos livros, sei lá por que, lhes confere uma dignidade sem nome, talvez porque eles guardem a doçura e a ansiedade de muitas e tantas mãos que os tiveram.

Os livros são uma espécie de testemunha do tempo, ali quietos, sem gritos aparentes, guardam em si o mundo que as criaturas escreveram, ousaram, quiseram , de qualquer forma, colorir e reinventar.

Tudo muda, a cor das casas depois da chuva, das estações, dos anos. Mudam os nossos afetos mais profundos, guardados também lá dentro do nosso peito, no silêncio das nossas vidas, na esperança dos nossos sonhos. Até os grandes ódios se abrandam.

E porque tudo muda, eis que a lembrança é sempre a que permanece.
Lembro-me de paisagens , criaturas, ambientes.

Nitidamente, lembro-me de criaturas, sobretudo de seus olhos e sons de suas palavras.

Algumas , incompletas, e, talvez, por isso mesmo, tão bonitas.

Determinados cabelos ou cor de olhos me impressionam sobremaneira, anos se passarão antes que eu possa perdê-los de vista. Determinadas expressões me ficam na memória, impressas a ferro e sangue, em fogo e dor.

Cheiros e perfumes delicados também jamais me sairão da mente. Lugares e pessoas têm cheiros peculiares, aprendi durante a vida.

Tive uma professora de quem jamais me esqueci: cheirava banho recém-tomado, perfume delicado e suave, roupa passada a ferro, limpeza, sabonete. Quando debruçava-se sobre mim e meu caderno, ah, o mundo era todo cheiros inesquecíveis, havia uma tontura em mim que meus sábios sete anos adoravam experimentar todos os dias. E tinha o nome de uma brisa que passava ligeira: Ermínzia.

Guardo também, das criaturas que amei, o jeito das mãos. E quanta gente guardo lá dentro de mim! Mãos grandes e quadradas, mãos quentes, mãos pequenas e mentirosas, mãos de dedos curtos , simuladoras; mãos de dedos longos, perfeitos, prontos para o teclado, alegres. Mãos de unhas roídas…
Fotografei para nunca esquecer… não poderia esquecer tudo isso…

Há muitos outros momentos de que jamais me esquecerei, são lembranças tão solenes que me doem: estar a ouvir a Sinfonia 40 de Mozart ou Djorak com sua Sinfonia n. 9 ( Sinfonia do Novo Mundo).

Sinto-me como um castor, guardando coisas.

Esperanças, restos, jeitos, sons, delicadezas, mas me reservo o direito de guardar algumas amarguras porque com elas pude ir mais longe, sobreviver.

Guardo paisagens, jardins, um campo de trigo , um punhado de nuvens no céu. Penso sempre que me são importantes todas as coisas que vi: um ipê coberto de flores amarelas, pedras na encosta da montanha, o sol nascendo, a lua cheia, um beija-flor estabanado, os olhos verdes de meu filho mais novo. Guardo a temperatura da pele de minha única filha e sua luta também é minha, Ana.

Especialmente guardo na lembrança o rosto de meus filhos quando pequenos, os cheiros que eles tinham, tão bom! E minha memória guarda ainda os cheiros do quintal da minha infância.

Por isso, porque tudo pude sentir e tudo ver, não guardo a acidez de certas almas. Por elas somente é que morreram em mim, graças aos deuses, certas lembranças.

E me lembrando da esperança, sei que o tempo me livrou daquilo que macieza de algodão não foi.

E por ter acendido uma lâmpada dentro de mim, posso hoje iluminar minha alma. E sorrir como se tudo fosse uma primeira vez.

*Esther Rosado

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