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Como é que se cala um passarinho?

*Esther Rosado

As tardes são de céu azul neste quase agosto.

E há um espécie de gosto, uma alegria da alma quando se olha uma nuvem dependurada em coisa alguma invisível, flutuando livre no céu.

Desde menina eu gosto do céu desse mês e posso nele ver desenhados carneiros-nuvens, pessoas, pássaros,  algodão doce, qualquer coisa que imaginemos, basta imaginar.

Por imaginar é que  eu sei de uma história que conto aqui: pobres rãs viviam naquele fundo de poço lodoso, mal-cheiroso, apinhado de folhas secas. Sempre na penumbra, jamais tinham visto a luz e, portanto, nunca imaginariam que para além dali existiam árvores, flores, um riacho de águas claras. Sequer poderiam imaginar o voo das abelhas, as flores coloridas e cheirosas, o vento, o céu azul recortado de nuvens brancas, o barulho da chuva; a música dos pássaros ao amanhecer.

Nenhuma dessas rãs sequer imaginaria  a música de um violino, a voz de uma criança, o ruído de pássaros e esse silêncio vivo de um bosque ao meio-dia, tão diferente do barulho do anoitecer quando as aves e suas asas se escondem do medo e do frio da noite: bicos e penas, um pescoço e uma perna, um chilrear.

Mas certa vez um pequenino pássaro descuidado voou da borda do poço até o fundo e se sentou para descansar por um instante antes da subida  para a  luz.

Viu as rãs, pobres coitadas encolhidas e tão tristes, naquele lusco-fusco.

Então ,  para distraí-las e fazê-las felizes, começou a contar-lhes o que havia aqui fora: luz, as matas e os rios, as flores e folhas que sussurravam ao vento, o cheiro de pão recém-feito, o zunido das moscas, os frutos nas árvores e arbustos.

Voltava quase todos os dias  para, ah imaginação, contar histórias de caminhos cobertos de pedrinhas redondas e lisas, a frescura à beira dos rios.

No início, as  jovens rãs não acreditaram em nada, mas , aos poucos, esperavam ansiosas pelo pequeno pássaro; as mais velhas, que pertenciam a um grupo de pensadores muito sérios, começaram a acreditar que o pássaro pregava uma ideologia muito perigosa, extremamente manipuladora e muito alienante. Não iria dar certo aquelas visitas tão frequentes…

Certa vez, quando o passarinho voltou ao fundo do poço para contar o quão maravilhoso era o mundo, as rãs-pensadores-muito-sérios o prenderam imediatamente, fecharam rapidamente seu bico com muitas voltas de  fita crepe e torceram seu pescoço sem dó nem piedade.

Que passarinho perigoso, diziam enquanto o colocavam em um fundo buraco naquele fundo de poço e cobriam seu corpinho frágil e morto com lama e folhas … As jovens rãs aplaudiam ou ficavam tristes, mas, por fim, concordaram com os privilegiados pensadores que, afinal, tudo conheciam, tudo sabiam.

Poucos dias depois, os tais pensadores colocaram ali, afixada nas paredes do  tal poço, a seguinte máxima: “Boca de onde sai mentira , é bom que se cale para não oferecer mau exemplo.”

Uns comentavam que era uma pena o passarinho ter sido morto porque era um louco varrido e fazia a diversão do lugar; outros diziam que ele mentia tanto que  bem poderia escrever livros de ficção.

Apenas uma rãzinha olhava desconfiada para cima e saltava ensaiando pular para fora e conhecer, afinal, aquilo que intuía ser verdade.

(*A Rubem Alves, de quem ouvi esta história, um professor e filósofo querido, um escritor como poucos.)

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