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Beijar o chão – Ponto e Vírgula

Ontem, já bem tarde, fui assistir aos jornais. Na GNews , vi um acontecimento que me causou estremeções na alma e não me deixou mais  dormir: uma ucraniana volta para casa, se ajoelha e beija o chão do jardim destruído, da casa destruída, do cotidiano arrancado e costurado a arame farpado.

Perguntada pelo repórter, disse que só tinha vindo até ali para aquilo mesmo: beijar o chão da casa, do país chamado Ucrânia e que nunca imaginou que os russos, irmãos deles, pudessem destroçar a vida das pessoas, destruir -lhes a existência.

E nós? Nós, os brasileiros com inflação de dois dígitos, com muitas prestações atrasadas, sem emprego, sem nada, com fome, comendo pouco, com medo. E o poder querendo outra vez o poder sem ter feito nada pelos pobres senão dar-lhes esperanças tolas. Tiraram-nos escolas, pesquisa e direito à esperança, retardaram a compra de vacinas, declararam guerra aos desiguais. Até quando nos destruirão todos os dias?

Tenho medo dos que são alucinados pelo poder. De todos os desatinos da alma humana, esse, o desejo pelo poder, é o mais perigoso porque nos conduz por caminhos sem volta, a luz da alma se apaga e a inquietação acontece como uma fome por aquilo que se deseja: poder, poder, poder, poder.

Em nome dele todos são inimigos, em nome dele, muitas pessoas morrem pela estupidez ou falta de fraternidade entre os povos, há bombardeios e miséria neste mundo que Drummond considerou vasto mundo (e completou: “Se eu me chamasse Raimundo/seria rima e não uma solução. /Mundo, mundo, vasto mundo/ mais vasto é o meu coração.”).

Vasto mundo, o que nos descortinará o próximo dia, mês ou ano?

Os vagos corações, a paixão inata para a perversidade? O que há no ser humano que se assusta à menor menção do futuro, que se encolhe de medo (ou de rancor?), que nos faz tremer de paixão e violência? O que houve em nós de bom e que um dia perdemos sem volta, esperança e sabedoria?

Penso sobre isso e penso naquela mulher que foi beijar o chão da sua casa destruída e de seu jardim; ajoelhada, queria como que abraçar o pequeno gramado. Pequenas flores tinham renascido, tal qual o amor de Deus renasce a cada dia e nos acolhe, perdoa e ama. Confia em nós e talvez nos queira bem demais.

Esther Rosado

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