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As ovelhas seguem a voz do… vereador?

*Texto de Gustavo Montoia

Como professor de ensino médio – nas cidades do Vale do Paraíba – certa vez, passei por uma experiência interessante com a realização de um projeto sobre “urbanização” com meus alunos do 3º ano do ensino médio. Isso ocorreu há muitos anos, mas, nesse tipo de projeto, o foco era o protagonismo juvenil, ou seja, era a iniciativa que os estudantes tomavam na execução do projeto.

Um grupo de estudantes resolveram entrar em contato com um vereador para conhecer mais da administração de uma cidade. Este vereador, por sua vez, conseguiu com que os arquitetos da prefeitura comparecessem à escola para explicar o zoneamento da cidade para todos os colegas.

A ideia era brilhante, até que o vereador “do bairro” resolveu “tirar satisfação” com o diretor da escola, pois, ele era o vereador daquela região! Diante da situação de constrangimento, no final tudo se resolveu, apesar do acovardamento dos arquitetos naquele dia.

Interessante nesta situação é o sentimento do vereador de ser dono das pessoas. Aquele eleitorado passa a ser de sua exclusividade, e, como um curral, as pessoas passam a ser vistas simplesmente como os bois que são guiados no interesse do vaqueiro.

Essa mentalidade do final do século XIX é um ranço na política brasileira. O domínio das pessoas para angariar votos chega a situações absurdas, contudo, cotidianas: em pleno processo eleitoral, existem aqueles que ganham tijolos para terminar de erguer o muro de sua casa, cestas básicas surgem até em momento em que não há necessidade, e, nos finais de semana, doces são distribuídos para a criançada na praça do bairro. Em algumas localidades no Brasil, alguns políticos ainda são chamados de padrinhos, batizam crianças, financiam casamentos.

O vereador é aquele que possui uma história com a comunidade. A partir de um lugar e de uma atuação geralmente social, ele emerge como um potencial candidato. Isso é importante, pois precisa ter uma história orgânica, real, para ser reconhecido socialmente. Porém, isso é apenas o ponta pé inicial e não pode ser um fim em si mesmo.

O vereador é o servidor público de toda cidade. Se ele atua na zona sul da cidade e moramos na zona norte, precisamos compreender que isso é positivo para todos os habitantes independentemente de onde residam. Isso é promover o desenvolvimento da cidade e traz frutos bons para todos os seus cidadãos. Não podemos manter a ideia de que o vereador é um atendente somente do bairro “que o elegeu”, pois ele precisa olhar para o todo.

Países com melhor sentimento cívico possuem habitantes que desejam eleger um político que se preocupe em cumprir seu programa, em cumprir deveres sociais para todas as pessoas no respeito das Leis e na transparência. Nada de suborno, “rabo preso” ou ser eleito para dar emprego de assessor para conhecidos ou arranjar “cabide de emprego”.

O cientista político Robert Putnam afirma que, quando os políticos estão mais próximos dos eleitores e conhecem mais a realidade que atuam, costumam se preocupar em cumprir as suas metas, em ter um maior desempenho institucional, desde a busca por aprovação ou cobrança para a construção de creches, fiscalização do orçamento municipal, promover uma legislação mais inovadora e serem solícitos com o público no atendimento e não no privilégio. Que sejam esses vereadores que despontem nas candidaturas neste ano e não aquele que troca o voto por um pedaço de pão!

Gustavo Montoia é geógrafo e doutor em Planejamento Urbano e Regional pela UNIVAP. É docente dos Colégios Univap e da EE Francisco Feliciano F. da Silva (Verdinho) e pesquisador-colaborador do Laboratório de Estudos das Cidades da Universidade do Vale do Paraíba.

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