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Acácias, Ninguém e o Albergue espanhol

*Esther Rosado

Março pelo meio e essa chuvinha nos anuncia o outono que lá vem.

A pandemia que não cessa, pessoas que, no Brasil, morrem como moscas e a mesa que se põe, o amor que se perde, a vida que tem novas chances e o Pazzuelo que já se foi, com a graça de Deus e os tambores de Codó, no Maranhão .

Na minha terra, a esta chuvinha desta quinta dá-se o nome de “chuvinha criadeira”; o barulhinho , a preguiça e a necessidade de se ficar mesmo em casa. O chá de cidreira e o biscoito de polvilho.

Então, leio. Estou lendo um livro chamado O albergue espanhol,escrito pelo presidente de Cabo Verde, Jorge Carlos Fonseca. Um homem elegante, sábio, com formação clássica. O livro é um luxo de sabedoria, postura ética, desde a orelha até o trecho da contracapa.

Lindo ler sobre as diferenças entre prosa e poesia, fico embevecida com as metáforas, as palavras certas e limpas nos lugares limpos e certos. Linguagem tão distante das grosserias que aparecem a todo instante por aí.
Quero escrever um artigo sobre este livro. E logo.

Não para comparar este escritor magnífico a nada e nem a Ninguém. Não. Temos lá o Fernando Henrique quase chegando aos 100 , um homem também importante na cultura nacional, só errou de partido, fazer o quê?
Fiquei sabendo agora, agorinha, que o Major Olímpio acabou de morrer de Covid. Coitado dele, apoiou o presidente, desapoiou e foi justo morrer de Covid? Que Deus o tenha.

Hoje, confesso, estou com vontade ler, ler e ler.

Assistir a um bom filme, estar entre amigos, dar abraços e beijos , colocar a mesa para a comida que, todos juntos, comerão. Oferecer ao outro o ensejo de servir-se em primeiro lugar, estar cercada dos que amo e para os quais gostaria de cozinhar, fazer pão, cantar e tocar violão junto com João Azeredo, Veloso, Salette, Érica, Dinamara, Celso Abrahão, Daniel, Tony Cardoso, Paulo e Cris, Joana Aranha e Maurício, Thomé T. Madeira, Wener, Cabrera e Shirley , Ana Job, Wilma Galhego, Isabel, Idabel , Celso Vasquez, EVânia, Bene, Marisa, Elke, Mário, Renata, Geraldo,Michele, Inez Valezi, todos ligados à Literatura, que viva a Literatura minha gente!

Quase outono. O céu de outono é uma maravilha, essas águas de março deixarão saudades e Iansã trovejando e ventando e tempestadeando é uma belezura. Santa Bárbara tão linda, que beleza de se ouvir.

Quase outono, eu me pego cheia de medo de frio demasiado e a Covid se alastrando feito fogo em mato seco.

E as pessoas que se queixam de seus mortos e a vida que vai adiante e tomara que saiamos dessa.

A certa altura do romance que leio e indiquei, o narrador cita uma cama de acácias. Não sei se forrada de pétalas, não sei se feita da madeira desta árvore. Mas pus-me a imaginar, nestes tempos tão sombrios, nesta cama fresca e seu lençol de pétalas amarelas, limpas e abauladas, cheirosa cama para descansar olhando o céu do outono que aí vem: azul nas tardes ensolaradas e sem nuvens.

Estendo a mão pela janela, tomo para mim umas gotas de chuva.

Talvez seja o choro que choro por tantas mortes. Talvez seja a metáfora das pétalas de acácias ou suas folhas largas, cheirosas também, verde-esmeralda, num mundo rude e cru cheio de doenças e ódios . Tomara que no ministério da saúde, o Ninguém acerte.

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