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A visão do esplendor

A chuva que está chorando lá fora é calma, serena, uma chuva para o meu coração se lembrar de tudo ou para guardar em gavetas a memória dos dias, o amor e a esperança, a vida e os acontecimentos.

Procuro uma a uma as coisas mais importantes que vivi e experimentei: passarinhos na roseira (ai, me perdoa Tom Jobim!), caminhozinhos cheios de pedrinhas brancas e delicadas, seixos rolados, cheiro da flor de café pela manhã, cafezal em flor, laranjal em flor, o barulho longínquo das folhas ao meio-vento sem assustações ou medos.

Lembro-me de um dia, no sítio de meu avô, em que estávamos todos esperando a chuva passar. Minha avó cobrira os espelhos e enrolara os talheres nos guardanapos, as facas nas toalhas. Era assim antigamente. Então, sei lá que me deu, corri para a varanda, talvez Iansã chegando e olhei a grande árvore no pasto em frente à casa e vi uma enorme explosão que a partiu em dois e derrubou, já mortos, uns cavalos que estavam sob ela.

Desde então, Vida, sei que existem coisas poderosas que nos acontecem, as quais não podemos evitar, apenas observar de longe e sentir que a Natureza é forte, tão linda e desmedida. Tal como o coração da gente, tal como o amor, a alegria e a esperança.

Daqui a pouco, eu terei ido embora dessas lembranças magníficas e outros virão e escreverão outras histórias com gosto de terra, de milho verde na fogueira ou pão feito em casa. Com gosto de mãe, de pai e de família.

Daqui a pouco teremos ido para muitos outros planetas do Sistema Solar ou o Portão de Órion, nos confins da Via Láctea. Meu espírito imortal, no entanto, levará consigo o clarão e a energia daquele raio e o sentido que aquilo teve dentro de mim: respeitar a Natureza que eu não sei e nem posso governar. Amar aquilo que muitas vezes não reconheço como intensa força que destrói e reconstrói dentro de mim o que sou de humano e suas complexidades.

Um dia, repito, corri para a varanda e tive a visão do esplendor. O termo é de Clarice Lispector e dá nome a um livro dela, mas eu senti aquela força e aquele clarão e sei, aí como sei, o que não se pode evitar.

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