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A serviço do MAL, inútil para o BEM – Mal resultado das escolhas humanas

Professor Gustavo Montoia

Apesar de falhas, o Sistema Único de Saúde em nosso país já salvou muitas pessoas e erradicou muitas doenças. A diminuição da mortalidade infantil é um exemplo. A federalização da saúde foi eficiente. Esta era a minha esperança com a COVID-19 no Brasil. Mesmo em batalhas difíceis no combate à esta pandemia, este sistema, em seus quase 30 anos, seria de grande valia.

Mas, ultrapassamos a marca de 12 mil mortos. De quem é a culpa? Uma parte desta resposta, gostaria de ilustrar com uma história: Adolf Eichmann foi um homem, na Alemanha nazista, que ajudou a organizar o holocausto. Aquela matança de judeus, negros, homossexuais, Testemunhas de Jeová e todos aqueles que se opunham ao nazismo, eram mortos nestes campos de concentração da maneira mais humilhante possível.

Quando acabou a Segunda Guerra Mundial, Adolf Eichmann foi julgado. Em seu julgamento, ficou provado que não havia nele ódio aos judeus. Então, por que ele os enviava aos campos de concentração? Simplesmente, ele cumpria o seu dever. Este era seu trabalho e ele cumpria. Ainda que fosse cruel, ele estava seguindo as regras do momento. Ao exercer a sua função, para Eichmann cumprir sua função era sua moral – não discutia se aquilo era certo ou errado na medida dos outros, para ele, em sua medida particular, o certo era cumprir a sua função.

A pensadora Arendt usou uma expressão para explicar Eichmann: a “banalidade do mal”. Eichmann, apesar de não planejar a morte dos judeus, organizou o sistema ferroviário que os levava à morte. Era um administrador que exercia uma função que, sem a intenção de fazer o mal – matar os judeus, como não questionava suas convicções, o praticava todos os dias.

Sendo um homem indiferente, Eichmann foi treinado para seguir ordens. Seguia cada uma delas à risca, apesar de seus efeitos. Da mesma maneira somos nós na indiferença. Ao pensar que nossas atitudes são boas, praticamos o mal. Ao não ser atingido pelas coisas, duvidamos se elas são verdadeiras e não nos preocupamos com o outro.

Na descrença com a política, na rejeição à ciência, nos padrões moralistas que vivemos em nossa sociedade sem ao menos refletir sobre eles, não nos preocupamos com o uso da máscara na rua ou em cumprir o isolamento social de maneira eficiente, adotamos discursos de que isso é uma “conspiração” para isso ou aquilo, desvalorizamos a gravidade do que estamos vivendo como sociedade, por não acontecer ao nosso lado.

Dessa maneira, a doença se prolifera, é instalado um clima de confusão em nosso país, adotamos uma postura negacionista, divulgamos notícias falsas sem ao menos verificar, não refletimos sobre nossos políticos a favor do nosso próximo, mas, aceitamos uma defesa cega de um discurso cada vez mais ideológico e as pessoas morrem!

Pensando fazer o bem, realizamos o mal, como resultado destas escolhas. E, no bom pai, no cidadão honesto, na vizinha preocupada, naquele que realiza doações para ajudar o outro, todas estas coisas se tornam inúteis para o bem. Na medida que criamos um clima de confusão e desrespeitamos a vida do outro, uma ajuda não será capaz de redimir o mal causado.

As cidades do Vale do Paraíba correm um sério risco ao aumento de casos de COVID-19. As pessoas estão desrespeitando o isolamento social e o uso da máscara ao sair nas ruas. Muitos, ao serem questionados, negam a realidade. Você está disposto a carregar em sua consciência a culpa por esta gravidade? Ao julgar-se cidadão de bem, na repetição de que a mídia mente, de que os cientistas mentem, de que é mentira o número de mortos, de que existem caixões vazios, de que informações pelo Whatsapp são mais importantes do que as pessoas que se dedicam por anos em seus estudos, você está fazendo o mal. E, então, será inútil para o bem quando tudo acabar.

É claro que todo brasileiro quer uma solução. Ninguém apontou uma arma para outra pessoa, ou, propositalmente deseja transmitir uma doença. Somos parte de um mesmo grupo. Assim, proponho, neste artigo uma reflexão. Ainda que seja um tom de advertência, eu desejo que cada um venha pensar sobre isso. Pessoas estão sendo curadas da COVID-19, contudo, o número de mortos aumenta a cada dia. O Brasil é o país da América do Sul com o maior número de mortos. Segundo universidade americana Johns Hopkins, o Brasil é o 7º país com mais casos no mundo.

E enquanto outras nações já afrouxam o isolamento, nossa curva se acentua, os hospitais lotam, pessoas morrem na espera pelo atendimento e alguns brasileiros divulgam fake news menosprezando a situação. No final, sobrarão vagas de emprego para os preocupados com a economia.

Gustavo Montoia é geógrafo e doutor em Planejamento Urbano e Regional pela UNIVAP. É docente dos Colégios Univap e da EE Francisco Feliciano F. da Silva (Verdinho) e pesquisador-colaborador do Laboratório de Estudos das Cidades da Universidade do Vale do Paraíba.

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